Michael Douglas e a mediatização do cancro

Vi há pouco no Telejornal da RTP1 uma peça com um excerto da entrevista do actor  Michael Douglas no programa de televisão Late Show, de David Lettermem, a falar do cancro na garganta que, segundo o próprio, lhe foi diagnosticado há algumas semanas. Era um programa de humor em que a assistência ria às gargalhadas sempre que o actor falava de pormenores do cancro, tais  como “eu só o tenho na cabeça e no pescoço, para baixo nada” ou ainda está no “estadio 4″  e que o  “bom aspecto” que o entrevistador lhe gabava se devia a estar “no palco”. Em Portugal temos também casos recentes de mediatização de doenças graves de figuras públicas, geralmente da área artística, o último dos quais, o actor António Feio, foi talvez o de maior visibilidade. Trata-se  de um fenómeno relativamente recente, pelo menos em Portugal, que coloca em crise a teoria clássica das “três esferas” - esfera íntima, esfera privada, esfera pública – e alguns preceitos da Lei de Imprensa e do Estatuto do Jornalista sobre o direito à  reserva da intimidade da vida privada. Esses valores são invocados por muitas figuras públicas oriundas do próprio meio artístico quando os média invadem alguma dessas esferas. Recordo o caso de uma notícia do extinto jornal 24 Horas  sobre Agustina Bessa Luís que provocou em 2007 uma queixa à ERC da família da escritora e uma deliberação da ERC dando razão aos queixosos, entre outros motivos, por “intrusão grave e desproporcionada na esfera da intimidade da vida privada e familiar”.  Mas existem outros casos em que figuras públicas se queixam de invasão pelos média da sua intimidade e  privacidade, não por motivo de divulgação de doença mas sim de episódios amorosos ou simplesmente por publicação de imagens que consideram pertencerem à sua vida privada. Sabendo-se como muitas dessas figuras públicas, sejam do mundo artístico, político ou outro, devem a sua notoriedade a esse  tipo de “invasão”, muitas vezes, diga-se, suscitada pelos próprios, coloca-se a questão de saber a quem cabe o poder de decidir o que é público e privado, se aos jornalistas se às ditas figuras públicas. Trata-se de um tema interessante que frequentemente cria equívocos entre a lei e a praxis.

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