Os despedimentos nos jornais e os “tabus” do jornalismo (2)

Volto ao tema abordado aqui. As questões então colocadas eram:

1. Que significado têm os “tabus” identificados?

2. Que outras situações podem ser encontradas quando se considera o binómio meios de comunicação social do sector público e do sector privado?

Tentarei, por agora, dar resposta à primeira questão.

Os jornais não noticiam, em geral, os despedimentos nos grupos a que pertencem, por três principais razões:

- A primeira, porque os jornalistas têm como princípio não serem actores das suas próprias notícias, isto é, não escrevem sobre factos em que estejam directa ou pessoalmente envolvidos (deve dizer-se, contudo, que há exemplos, de assuntos não relacionados com despedimentos, em que esta regra não foi cumprida, alguns dos quais deram participações na ERC);

- A segunda,  porque as notícias dos despedimentos são inevitavelmente notícias negativas para os autores desses despedimentos, que são os “patrões” dos jornalistas, existindo da parte das redacções uma espécie de auto-contenção (eufemismo de auto-censura);

- A terceira, porque os directores são quase sempre “chamados” a “gerir” os despedimentos, eventualmente, colaborando na definição e aplicação dos critérios de selecção dos elementos a despedir, independentemente de discordarem deles.

Existem, pois, constrangimentos que dificultam que um jornal noticie os despedimentos de que é alvo. Quando, em casos raros, os noticia, o tratamento jornalístico que lhes é dado está longe do detalhe conferido a despedimentos noutros grupos de média ou noutros ramos de actividade.

Quanto ao facto de serem noticiados por outros órgãos de comunicação social, pode dever-se a que através dos despedimentos “em casa alheia” se pode indirectamente chamar a atenção para  situação idêntica já verificada, ou com probabilidade de vir a ocorrer, na própria “casa”.

Acresce que o “tabu” não se aplica apenas aos jornalistas. Seja fruto do acaso, coincidência, desinteresse pelo tema, ou outra razão qualquer, também os colunistas externos “calam” nas suas colunas os despedimentos nos jornais onde escrevem. Tomando como referência os últimos despedimentos conhecidos, relativos ao grupo Impresa, abrangendo o semanário Expresso, verifica-se que nas edições seguintes ao anúncio (feito por outros jornais) desses despedimentos nenhum dos seus colunistas abordou o tema nos seus artigos, pelo menos na edição impressa. Dir-se-ia que a solidariedade dos colunistas para com o jornal se manifesta através do silêncio.

Ao contrário, não é raro, em situações em que um jornal (ou outro meio) é alvo de crítica por parte de alguma entidade pública (cito de memória o chamado caso “incêndios florestais”, em 2006, em que a ERC criticou o Público - publico-nota-oficiosa-2- o que motivou um “violento”editorial  do então director - e artigos de opinião - artigo-no-publico-bodes-espiatorios-dez-2006  – artigo-no-publico-quem-o-tem-chama-lhe-seu-dez-2006)  colunistas  utilizaram os espaços de que dispõem nesse jornal para se solidarizarem com a direcção contra a entidade que os criticou.

O “tabu” dos despedimentos nos jornais, abrange, pois, os seus colaboradores externos. Contudo, não é raro colunistas manifestarem abertamente discordância quanto a posicionamentos ideológicos, ou de outra natureza, expressos em editoriais que são, como se sabe, da responsabilidade da direcção, o que torna o seu silêncio relativamente aos despedimentos ainda mais notório.

Pode, pois concluir-se, sem prejuízo de uma análise mais fina, que o “tabu” do silêncio em torno dos despedimentos nos jornais, por parte dos seus colunistas, resulta de algo  mais fundo e mais abrangente que merece análise mais aprofundada.

Uma nota devida a Alfredo Maia que chamou a atenção para o facto de nos casos de notícias de despedimentos que apresentei em texto anterior, apenas em três deles terem sido mencionados comunicados do Sindicato dos Jornalistas. Tem razão no reparo. De facto, não citei, no caso dos despedimentos no Público este jornal  e, no Expresso, este e este, que citam comunicados do SJ.

É verdade, porém que em geral os comunicados do Sindicato dos Jornalistas não têm grande acolhimento nos média (a não ser, como se depreende dos casos referidos, quando não há fontes “visíveis” para citar).

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