Os diplomatas (portugueses e estrangeiros) que conheci (em mais de 10 anos de convívio quase diário) e conheço são, em geral, pessoas de grande cultura e dedicação aos seus países. Observam e estudam a realidade dos países onde trabalham e procuram transmiti-la aos seus governos. Muitas das informações e opiniões que expõem nos agora famosos “telegramas”, tiram-nas dos contactos formais e informais que estabelecem com personalidades públicas e privadas e com jornalistas. São também, em grande parte, fruto da leitura e acompanhamento dos média dos países onde se encontram. Os diplomatas “de carreira” não fazem política. Há, claro, os “embaixadores políticos” mas esses quando ficam muito tempo “em posto” adaptam-se ao “perfil” da “carreira”.
Este “ponto de ordem” serve-me de entrada para o seguinte:
Vi, há pouco, na SIC, a Procuradora Cândida Almeida dizer que o DCIAP vai analisar as revelações do WikiLeaks sobre o uso da base das Lajes no repatriamento de presos de Guantanamo. Também vi deputados portugueses dizerem que querem ouvir responsáveis do Banco de Portugal sobre as revelações relativas à alegada actividade comercial do BCP no Irão.
Há então que colocar as seguintes questões:
No caso do DCIAP, como serão conduzidas as investigações? Quem será chamado a depôr e em que “qualidade”? O Assange, não será certamente porque é apenas o “correio” das revelações. A sua fonte (o “militar americano no Iraque”), também não porque ou está preso ou em parte desconhecida (para nós). Os jornalistas que publicam os telegramas, também não porque nenhuma lei os impede de o fazer. Os diplomatas americanos que escreveram os telegramas, também não porque estavam a desempenhar as suas funções e não violaram nenhuma lei do seu País ou do nosso. Acresce, quanto aos diplomatas, que não se sabe com rigor quem lhes transmitiu as informações que verteram para os telegramas.
Restam então aqueles que são citados nesses telegramas pelos informadores dos diplomatas americanos, isto é, os governantes e (agora) os banqueiros do BCP. Mas dado que estes negam ou atribuem significado diferente ao conteúdo dos “telegramas“, como se resolverá a contradição?
Desta “orgia informativa” algumas conclusões simples podem desde já ser extraídas: em Portugal, o WikiLeaks consegue ao mesmo tempo empolgar jornalistas e políticos da Oposição; incomodar governantes e banqueiros; pôr o Ministério Público a investigar “telegramas” de diplomatas americanos. Consegue também, como aconteceu hoje, pôr os telejornais a lerem e a exibirem em imagem as opiniões dos diplomatas americanos sobre os políticos portugueses.
É obra!
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