O candidato anti-políticos

 

Fernando Nobre trouxe aos debates eleitorais um tema que tem tanto de popular como de demagógico. É também um tema “perigoso” porque levado a sério seria profundamente antidemocrático. Fernando Nobre orgulha-se de não ser político e verbera os candidatos seus adversários, por o serem, já que todos eles emanam de partidos políticos e exerceram no passado ou exercem no presente funções políticas.  

Fernando Nobre acrescenta à sua saga contra os políticos a ideia de que se ser político é mau, ser político profissional é ainda pior.

Ora, se alguma crítica há a fazer à condição política de alguns dos candidatos é, precisamente, o facto de não serem tão “profissionais” como se espera de quem pretende desempenhar altas funções do Estado. Ao contrário do que pretende o médico-candidato, a profissionalização da política é uma qualidade e não um defeito.

Nem se entende, aliás, porque razão a “profissionalização” deve ser (como é)  uma meta a atingir em muitas áreas do saber e da acção prática – da medicina (área onde Fernando Nobre se orgulha de ser um profissional)  à docência, à advocacia, ao jornalismo e a tantas outras – e a política só deveria contar com “amadores” ou out-siders  que num momento de inspiração (provavelmente divina) resolvessem vir salvar a Pátria lançada em perdição pelos políticos “profissionais”.

Não bastava já ouvir os novos oráculos que pululam nos média defenderem que com os políticos a crise não se resolve (como fez o empresário Soares dos Santos no último “Plano Inclinado”, na SIC Notícias) senão vir agora um candidato a Presidente da República explorar sentimentos anti-políticos e anti-política, sem dúvida existentes em alguns sectores da sociedade portuguesa, que lhe competia combater em nome da democracia pluralista – o único regime que dá garantias de acolher mesmo aqueles que o combatem  (não é, naturalmente, o caso de Fernando Nobre ou de qualquer dos outros candidatos).

Os debates presidenciais têm, aliás, revelado alguma falta de profissionalização precisamente da parte de candidatos  tidos como “profissionais” da política. Por exemplo, Manuel Alegre não “se faz” à câmara com o “profissionalismo” de Fernando Nobre.  Cavaco Silva sempre foi um “profissional” da “desintermediação”, falando directamente para os eleitores, e continua a sê-lo quando, nos actuais debates se coloca no “patamar superior” do Presidente que recusa falar nas “tretas” que, por exemplo, Defensor de Moura lhe lançou.

O “combate” anti-políticos não fica bem a um candidato presidencial. Ao contrário, espera-se de um candidato ao mais alto cargo da hierarquia do Estado, o único em que os cidadãos são chamados a escolher uma pessoa e não uma lista de um partido político, que essa pessoa esteja à altura dos deveres que lhe são exigidos, entre eles, o respeito pela regra da democracia que assenta na existência de partidos políticos com programas e ideologias plurais.

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