O jornalismo e os jornalistas vistos por eles próprios

O OBERCOM publicou um relatório intitulado Desafios do Jornalismo, contendo os dados de um inquérito dirigido a jornalistas dos meios de comunicação social portugueses, abrangendo os grupos RTP, IMPRESA, MEDIA CAPITAL, COFINA, CONTROLINVESTE, RENASCENÇA e também os jornais “Público” e “i”, tendo sido validadas 212 respostas.

 

O inquérito inclui 72 perguntas sobre questões como papel e estatuto social do jornalista, qualidade do desempenho, eficácia dos mecanismos de auto-regulação e de regulação, cursos de jornalismo e formação complementar, organização da Redacção, valores ideológicos e qualidade da cobertura jornalística, aplicação do Código Deontologico e do Estatuto do Jornalista, interacção com os utilizadores/consumidores, futuro do jornalismo.
Apesar de os resultados serem bastante interessantes e reveladores das percepções que os jornalistas possuem sobre a sua actividade a generalidade dos média praticamente ignorou-os, tendo apenas dedicado algumas linhas … à ERC! (veja-se aqui, aqui e aqui). Passando ao lado da obsessão com a ERC (chamemos-lhe assim), à qual o inquérito dedica 3 perguntas, é um desperdício que tão interessantes dados sobre a maneira como os jornalistas se auto-representam  não tenham sido dados a conhecer aos seus leitores, ouvintes e telespectadores. 
 Para se ter uma ideia de alguns desses dados, veja-se:

 

1. Sobre a eficácia dos mecanismos de auto-regulação,  a Comissão da Carteira Profissional (para mais de 60% dos respondentes) e o Sindicato dos Jornalistas (para mais de 50%) são  vistos como Inadequadas ou Pouco Adequadas. Sobre o Provedor, mais de 50% dos inquiridos não responde.  O  Estatuto Editorial (para mais de 50%),  o Conselho de Redacção (para quase 60%), os Códigos de Conduta Jornalística (para mais de 50%) e o Conselho Deontológico (para mais de 43,3% sendo que 39,2% não respondem) são vistos como Pouco Eficazes ou  Nada Eficazes.

2. Sobre a ERC, 72,5% consideram Pouco Adequado ou Inadequado o “real impacto das suas acções” no sector a que pertence o inquirido; cerca de 73% consideram “a qualidade do desempenho da ERC no sector, no último ano”, Pouco Adequada ou Inadequada;  65,8% consideram Pouco Adequadas ou Inadequadas “as competências da ERC relativamente ao sector” em que a empresa do respondente se insere.

3. Sobre práticas jornalísticas, 49,3% Concordam ou Concordam Totalmente que “as audiências e a concorrência se impõem à relevância dos acontecimentos”.

4. Sobre a orientação ideológica da cobertura jornalística,  a maioria dos respondentes considera que “A proximidade a Valores de Direita” é claramente mais percebida do que a que se regista para os Valores de Esquerda.

5. À pergunta “O que pensa que o jornalismo de hoje tem de mais positivo ao nível da qualidade da cobertura“, 70% respondem que é a presença de uma Estética Apelativa e de um Largo Espectro de Cobertura. Apenas 15% respondem que é a Cobertura Rigorosa e a  Factualidade e ainda menos  (7%) referem a Profundidade da Cobertura. 

Em suma:

A representação que os jornalistas fazem da sua actividade não é brilhante:

- a maioria detesta a ERC e  vê os órgãos de auto-regulação – do Conselho Deontológico ao Provedor (sobre o qual nem responde) – como ineficazes ou nada eficazes;

-a maioria concorda que as audiências e a concorrência se sobrepõem à relevância dos acontecimentos e que a estética apelativa é o que o jornalismo tem de mais positivo, enquanto uma minoria acha que o mais positivo é a profundidade da cobertura;

- a maioria encontra mais valores ideológicos de direita do que de esquerda na cobertura jornalística;

- a maioria conhece o Código Dentológico mas às vezes têm dúvidas na sua aplicação.

 

Actualização (11 de Janeiro de 2011)

Como se pode ler aqui ( texto completo na edição impressa) , ao contrário dos jornais citados acima, o Diário Económico publicou em 23 de Dezembro uma peça assinada por Filipe Pacheco contendo um tratamento desenvolvido dos dados resultantes do inquério do Obercom.

About these ads
Esta entrada foi publicada em Auto-regulação, ERC, Jornalismo, Sociologia dos Média. ligação permanente.

5 respostas a O jornalismo e os jornalistas vistos por eles próprios

  1. Pingback: Gato por lebre…no jornalismo | VAI E VEM

  2. Ricardo Morais diz:

    Concordo com o Manuel Pinto, numa questão muito importante que diz respeito ao facto de, embora seja um estudo bastante interessante, traduzir “insuficientemente uma fatia relevante da profissão”. No âmbito de um projecto em que participo, fazemos uma pequena abordagem sobre os jornalistas dos media regionais e os resultados em muitos aspectos são interessantes, mas um estudo mais abrangente seria realmente interessante. Também por isso não compreendo, porque é que o estudo da ERC sobre a imprensa local e regional, que é realmente um grande trabalho, não abordou de forma mais aprofundada os jornalistas.

  3. Pingback: Tweets that mention O jornalismo e os jornalistas vistos por eles próprios | VAI E VEM -- Topsy.com

  4. Manuel, o que também é interessante neste inquérito é o facto de através das respostas dos inquiridos, por exemplo, quando reconhecem que as audiências e a concorrência se sobrepõem à relevância dos acontecimentos, quando reconhecem certos erros, quase básicos, da profissão, quando assumem a ausência de jornalismo de investigação, etc., etc., (faltam no inquérito muitas perguntas sobre, por exemplo, a relação e o uso das fontes de informação), estão a dizer implicitamente que a regulação é necessária. E, na medida em que, embora afirmem acreditar na auto-regulação, reprovam os poucos órgãos que ainda podem minimamente assumi-la e não se mostram capazes ou não têm vontade de encontrar algo que possa substituí-los ou completá-los estão, no fundo, a dizer porque é que não gostam da regulação, isto é, porque é que não gostam da ERC. Naturalmente, que a ERC não existiria se a sua criação tivesse dependido da vontade daqueles a quem se destinam as suas deliberações.

  5. Manuel Pinto diz:

    Seria necessário que nos debruçássemos sobre as razões da hostilidade dos jornalistas à regulação e, em especial, à ERC.
    Se a concorrência e o mercado ameaçam os critérios jornalísticos; se a auto-regulação é desejada, mas pouco praticada; se em várias situações o que temos, de facto, é “auto-regulação regulada”, que vantagens e que ameaças representa a (hetero-)regulação para os jornalistas? Qual o peso do factor específico ERC [os conteúdos e processos da sua praxis]? Em que medida a fobia à regulação não exprime, em parte – num registo algo psicanalítico – a projecção sobre a ERC do fantasma que é a incapacidade para os jornalistas se auto-regularem? Por outras palavras, em que medida é a ERC o ‘bouc émissaire’ da tal auto-imagem negativa de que o inquérito do OberCom dá conta?
    No meio disto tudo é sintomático o aspecto para o qual o post alerta: o quase silêncio que sobre estes resultados os media lançaram. Eu diria que a opinião pública está mais interessada nessas matérias do que pode parecer. E não apenas em desvendar os bastidores da vida das vedetas-jornalistas.

    [Sobre o inquérito, importa dizer que, apresentando dados interessantes e merecedores de análise atenta, ele traduz insuficientemente uma fatia relevante da profissão: por exemplo, os jornalistas dos media regionais e locais; os jornalistas free-lance; os jornalistas desempregados; os que trabalham à peça; os mais jovens (a grande maioria trabalha há mais de 10 anos). Será que os resultados se alterariam significativamente?]

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Connecting to %s