Gato por lebre…no jornalismo

Há cerca de uma semana foi publicada na revista Focus uma entrevista de Carlos Silvino, o principal arguido do processo Casa Pia,  realizada  por um jornalista freelancer de seu nome  Carlos Tomás, emitida também  num canal de televisão - a SIC – e depois largamente repetida na generalidade dos média impressos e audiovisuais.

Sem me deter  no conteúdo da citada entrevista, matéria para especialistas e  tribunais, existem outros aspectos dessa entrevista e do que se lhe seguiu que merecem análise.

Logo após a entrevista ter sido conhecida a Rádio Renascença informou que o jornalista que a fizera não possuía carteira profissional e que escrevera, em co-autoria com a ex-mulher de Carlos Cruz, um livro sobre “como a família do ex-apresentador de TV viveu todo o processo Casa Pia”.

O citado jornalista foi depois entrevistado pela SIC,  numa peça onde se incluía uma conversa ocorrida durante um encontro entre Carlos Silvino, Hugo Marçal e o próprio jornalista (organizado por este) onde se evidenciam contradições do jornalista sobre a sua participação nesse encontro.  Nessa conversa, Carlos Tomás trata  Silvino com uma familiaridade que não usa na entrevista – “tu” e “pá” – em alguns momentos dirigindo-se a ele num tom totalmente desajustado à  relação entre entrevistador e entrevistado.

Após a emissão destas peças surgiram notícias que atribuem ao autor da entrevista o “aliciamento” de um jovem para que “desmentisse os abusos de que foi vítima”, prática totalmente incompatível com o exercício do jornalismo

Paralelamente à divulgação destes casos, que colocavam em causa a qualidade profissional de Carlos Tomás,  surgiram na Internet vozes defendendo a sua idoneidade e recordando outros episódios do processo Casa Pia em que o mesmo participou como jornalista. 

Entretanto, Carlos Tomás anunciou que iria renovar a carteira profissional e tudo voltou à “normalidade”, passando a discussão a fazer-se no plano jurídico. 

Acontece, porém, que do lado do jornalismo  há questões que ficaram em aberto, desde logo, saber se alguém pode invocar a qualidade de jornalista para realizar um trabalho sem cumprir as regras do jornalismo e, o que é mais grave, que esse trabalho tenha  sido  aceite e publicado sem qualquer questionamento por jornalistas profissionais. E, no entanto, foi isso que se verificou.

É que uma entrevista jornalística obedece a regras éticas e legais às quais um “não jornalista” não está vinculado. Quem viu a entrevista a Silvino e os excertos da conversa entre  Carlos Tomás,  Silvino e Marçal,  em particular esta última peça, constata facilmente que  Carlos Tomás não se posiciona ali como um jornalista.

É por isso de estranhar que essas peças tenham sido emitidas em espaços noticiosos como tratando-se de peças jornalísticas.

Uma coisa é uma pessoa decidir (e conseguir) falar com arguidos ou  outras pessoas envolvidas num processo judicial, com objectivos próprios e pessoais (escrever um livro, por exemplo), outra coisa é essa pessoa invocar a qualidade profissional de jornalista sem observar as regras que essa qualidade lhe impõe. O  que a SIC deu a ver mostra que Carlos Tomás agiu na qualidade de cidadão e não na qualidade de jornalista (independentemente de no momento em que as realizou ter  ou não carteira profissional validada). 

Competia pois  à SIC ter verificado  que o trabalho que lhe foi proposto não obedecia a regras jornalísticas, rejeitando-o ou eventualmente emitindo-o  num reality-show sem a etiqueta de “jornalismo”, evitando assim dar aos cidadãos “gato por lebre”.

Certamente, como aliás foi anunciado, a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas reprovará  a conduta de Carlos Tomás e revalidará a sua carteira profissional. Por seu turno, os jornalistas (que, como se mostrou aqui, não apreciam sobremaneira esse órgão de co-regulação) arrumarão o caso até que surja um novo.

Só que as perguntas  que ficaram sem resposta não são  susceptíveis de   “arrumação”. É que se não forem  os jornalistas a defender o seu estatuto e a sua profissão, quem o fará por eles?

 

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10 respostas a Gato por lebre…no jornalismo

  1. João Bento diz:

    Primeiro mary, tem de aprender a escrever, é irresponsabilidade e não essa palavra que inventou!
    E depois acho que se não conhece as pessoas não deve julgá-las por aquilo que não sabe delas.
    Já que falamos de planos deontológicos e depois de jurídicos, posso alertá-la que isso pode incorrer na prática de vários crimes, entre os quais, injuria e calunia, ambos punidos civilmente e criminalmente. Da próxima vez não diga o que lhe vem á mente porque isso sim demonstra não a palavra que inventou mas sim irresponsabilidade!

  2. Mary Silva diz:

    Só me vem à mente:falta de vergonha,irresponsabelidade,ignorância da ética profissional…Terá mesmo a carteira profissional?…

  3. Só agora regressei com calma, e só agora li a sua resposta. Estando de acordo com ela, tenho pena que não a tenha analisado de uma perspectiva mais concreta. Este caso. Carlos Tomás foi escutado – e a sua integridade profissional questionada – com a publicação pública de conversas privadas ao telefone. Aliás, no caso “Joana Latino” – e não coloco em causa a leitura que faz também desta situação – também me parece ser uma situação idêntica.

  4. Pedro Fonseca diz:

    Obrigado pelo esclarecimento.
    Eu sei que não é da CCPJ mas da ERC. Como era uma questão – muito provavelmente – da competência da Comissão, por isso esclareci que não se tratava de qualquer queixa à mesma.

  5. Caro Pedro Fonseca
    O exemplo que refere é bem elucidativo do que eu escrevi no post. Rodrigo Moita de Deus é identificado no Briefing como director de uma empresa de marketing. A entrevista que ele faz não é, pois, uma entrevista jornalística nem ele está sujeito ao estatuto de jornalista. Mas, naturalmente, não está impedido de fazer entrevistas desde que as faça na qualidade que é a sua e não fazendo-se passar por jornalista. Esse “contrato” de transparência perante o leitor é essencial à credibilidade de um órgão de comunicação social. Pensar que tudo o que inclua perguntas e respostas é uma entrevista jornalística é um erro. A entrevista antes de se tornar um género jornalístico era apenas uma técnica de investigação sociológica (e ainda é) também ela com regras próprias. Não podemos confundir os géneros nem os estatutos de quem faz entrevistas.
    (Só mais uma nota: eu não sou membro da CCPJ)

  6. Depois de ler este “Gato por lebre…no jornalismo”, apetece perguntar a Estrela Serrano porque não analisa também a “entrevista” de Rodrigo Moita de Deus (responsável na empresa de marketing NextPower) no mesmo Jornal Briefing (http://fotos.sapo.pt/luispm/fotos/?uid=cCqaqjQ3OEZblvfOVUZd) em que participa. Não é pelo conteúdo, é porque fica em aberto saber se todos podem assumir a qualidade de jornalista e realizar trabalhos mesmo “sem cumprir as regras do jornalismo e, o que é mais grave, que esse trabalho tenha sido aceite e publicado sem qualquer questionamento por jornalistas profissionais. E, no entanto, foi isso que se verificou”. Não é uma queixa à CCPJ, é um pedido de esclarecimento à blogger do Vai e Vem.

  7. Caro Nuno,
    Se ler bem o meu texto, verá que eu não duvido que o Carlos Tomá seja jornalista, pelo contrário, remeto até para informação que refere o facto de ele ter trabalhado em pelo menos dois jornais. Esse não é o caso. O que eu digo é que naquelas peças, sobretudo na intermediação que faz da conversa entre Silvino e Marçal, o Carlos Tomás não assume o “distanciamento” que é suposto encontrar num jornalista. Ele está no seu direito de assumir os papéis que entender, a questão é que nem tudo é jornalismo (mesmo que tenha sido feito por um jornalista). Um texto ou um documento não se torna automaticamente jornalismo só porque o seu autor é jornalista. Um texto jornalístico (em sentido lato) tem na sua base o cumprimento de um conjunto de regras éticas e deontológicas que o distinguem de outros textos e lhe garantem a credilidade perante os leitores. Não está em causa o Carlos Tomás mas sim que se aceite acriticamente como jornalismo algo que merece, no mínimo, algum questionamento. Eu acho que assim defende-se melhor a profissão.

  8. Nuno Trinta de Sá diz:

    Cara Estrela Serrano,

    Custa-me ver a sua análise nesta matéria – subjectivíssima… Mas vamos aos factos.
    1º. O Carlos Tomás é jornalista – de investigação – profissional há muitos anos, com um percurso muito interessante. A renovação, ou não, do título é outra questão. Mas deixe que lhe diga: quantos milhares de jornalistas não terão o título “fora de prazo” e continuarão a fazer entrevistas? Essa matéria é complexa, sabe melhor do que eu, e remete para as questões intrínsecas do ofício. Acho que evocar questões éticas e deontológicas nesta questão é um complexo de “virgem pura” que só distrai e nada soma.
    2.º A entrevista – goste ou não da forma e da substância – é um “furo” jornalístico, um exclusivo. Fico muito admirado por tantos jornalistas, em vez de elogiarem o trabalho, virem a terreno arrasar, não com o arguído, mas, sim, com o veículo da informação… Freud explicaria.
    3.º Vivi um caso numa redacção em que, se fosse a contar com a “ajuda” do Sindicato de Jornalistas, ainda hoje estaria a “arder” com o dinheiro que uma editora me devia e não me queria pagar. Valeu-me/nos a Inspecção-Geral do Trabalho, que nos defendeu até à exaustão. O jornalismo português está de luto e tem de ser posto, depressa, na/numa Ordem, pois queima-se a árvore e deixa-se a floresta a arder em cinzas.

    Cumprimentos e felicidades para si,

    Nuno Trinta de Sá

  9. Caro Miguel
    Em geral e em abstracto penso que conversas privadas devem permanecer privadas, sejam quem forem os interlocutores, a não ser que se demonstre que um interesse superior se sobrepõe ao respeito pelo direito à reserva da privacidade de uma conversa que é suposto ser privada. Se uma conversa (profissiomal) de um jornalista com as suas fontes é tornada pública (não se trata aqui de uma questão de privacidade entendida como uma conversa entre duas pessoas no plano de relações pessoais e privadas) de duas uma: ou um dos interlocutores- o jornalista ou a/s fonte/s – quebrou a regra da confidencialidade (partindo do princípio que a confidencialidade foi acordada antes, pelas partes) ou alguém exterior às partes teve acesso a essa conversa e a divulgou. Também aqui se podem colocar várias hipóteses: se essa conversa foi divulgada (presume-se que por um órgão de comunicação social) esse órgão de com soc deverá justificar essa divulgação e provar que um interesse maior se sobrepõe à sua não divulgação. Trata-se, a meu ver, de uma situação excepcional que se justificará apenas se após a ponderação do teor da conversa se constatar que a sua não divulgação significará um prejuízo maior para valores em causa do que a sua divulgação. Pode ainda admitir-se a hipótese de que alguém que teve acesso a uma conversa de um jornalista com as suas fontes e não a queira publicar mas a considere suficientemente importante e grave para não ficar entre as partes que a travaram, poder optar por dar dela conhecimento (documental, isto é, com prova) a um eventual órgão de auto-regulação (se existir, for reconhecido pela classe e tiver poderes reais de intervenção). caberia então a esse órgão analisar o caso e proceder em conformidade. Isto é o que resulta da minha análise de casos que conheço e sobre os quais tenho reflectido e não de qualquer “lei” indiscutível.

  10. Cara Estrela Serrano,
    para lá de todas as dúvidas éticas, deontológicas e jornalísticas que coloca, e para as quais não tenho tantas certezas, deixo uma pergunta: as conversas telefónicas privadas, entre o jornalista e duas fontes, tornadas públicas, não sei se contra vontade dos seus intervenientes, não lhe merecem qualquer objecção?

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