O mundo lá fora e as imagens nas nossas cabeças

O título deste post pertence a Walter Lippman, jornalista americano, autor entre outros, de um livro que é um marco no estudo do jornalismo e dos média – Public Opinion, escrito em 1922 (o título do post é o nome da introdução).  Lippman debruça-se sobre  a irracionalidade das percepções sociais que influenciam  comportamentos individuais e minam a coesão social. É um livro sobre a democracia e os média.

Lembrei-me de citar Lippman por me parecer apropriado ao ambiente em que uma parte do país parece ter mergulhado  por estes dias. De facto, quem acompanha com regularidade a comunicação social, não pode deixar de verificar que existe um mundo “lá fora” e outro feito de imagens construídas e reconstruídas através dos média e das interacções que com eles se estabelecem, que influenciam as percepções que temos da realidade.   O dia seguinte ao das comemorações do 25 de Abril no Palácio de Belém é  um bom exemplo desse mundo construído.

Recapitulemos, então:

Passadas 24 horas sobre os apelos dos presidentes a  um “consenso”entre partidos, o líder do PSD afirma não querer uma nova “união nacional” e o ministro da Presidência responde que ele não percebeu nada do que foi dito pelos presidentes; um alto  dirigente do PS engana-se na tecla do telemóvel e envia para o FB um post a chamar “foleiro” ao Presidente da República;  não fica sem resposta pois um quadro do PSD chama-lhe “ciber-nabo”; um “grupo de reflexão” a trabalhar para o PSD anuncia propostas que implicam a redução de direitos na reforma aos desempregados o que leva o secretário-geral do Partido a dizer que essa  proposta não é  do PSD; uma candidata  do CDS apela  a que o líder do partido se candidate a primeiro-ministro; o PSD anuncia a sua festa de aniversário com a presença de todos os presidentes do partido em Vila da Feira no dia 6 de Maio; o PS anuncia a apresentação do  programa eleitoral para hoje, no CCB; o PSD escreve nova carta ao Governo sobre as parcerias público-privadas; o Governo reune  com a troika mas não se sabe nada do que lá se passou.

Já à  noite, o PM dá uma entrevista à TVI e diz que Teixeira dos Santos é seu amigo e conta com ele para tudo; desmente as notícias sobre as medidas do plano de ajuda dizendo que são especulações; defende que o pedido de ajuda, a existir, deveria ser feito depois das eleições; recusa meter a família na campanha por amor aos filhos… tudo isto em menos de 24 horas! 

Paralelamente, durante todo o dia as televisões não tiveram mãos a medir na gestão de tão estimulante fluxo informativo. Chamaram, como de costume, os comentadores para comentarem tudo o que foi dito e o que não foi dito mas se adivinhava. Os  programas de “antena aberta” discutiram os “casos” do dia - as propostas do tal “grupo de reflexão”; os discursos do presidentes proferidos na véspera; o incidente da mensagem “foleira”no FB e os propósitos da troika –  enquanto o “especialista” de serviço escolhido  para comentar os comentários dos telespectadores ia dizendo umas bagatelas. Os cidadãos que telefonavam para esses programas  diziam a primeira coisa  que lhes vinha à cabeça, muitas vezes sem quererem saber do que lhes era perguntado. Em geral, lançaram impropérios sobre os políticos  e os partidos e o Governo  em particular. Como sempre, ninguém se safou!

É um mundo paralelo que fica para trás quando desligamos o televisor e a rádio e fechamos o jornal. Lá fora a vida continua, há gente nos transportes públicos, nos supermercados, a entrar ou a sair do trabalho. As escolas reabriram, as famílias retomam a rotina do pós-Páscoa… 

Ontem,  faltou aos discursos dos presidentes a perspectiva do que é ser político, no governo ou na oposição, na actual paisagem mediática (que não é  mesma do seu tempo) com três canais informativos de televisão 24 horas sobre 24 horas, rádios com noticiários de meia em meia hora, todos  a repetirem à exaustão cada palavra, cada gesto, cada imagem cada comentário e cada debate sobre essas palavras, esses gestos e essas imagens vistas ou imaginadas, recriadas e reconstruídas sem cessar…. 

O mundo lá fora…e as imagens nas nossas cabeças…

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3 respostas a O mundo lá fora e as imagens nas nossas cabeças

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  3. aires diz:

    felizmente que para alem desta fauna falante,
    e bem falante julgam-se todos eles,
    o mundo pula e avança….
    alias discute-se crise
    como se discute futebol
    mesma profundidade e atenção mediatica
    com Analistas, Comentadores, Prof. Doutores
    deiexei comprar jornais e de ver telejornais
    vejo aqui blogs e alguma informação sintetizada
    abraço

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