10 de Junho, dia de Portugal, cumpriu-se o ritual.
O Presidente discursou e o presidente da Comissão Organizadora também.
O primeiro falou de agricultura e do futuro do País e deu pistas para o futuro ministro da agricultura executar; o segundo falou de política, desancou nos políticos, nomeadamente no governo cessante, e na Constituição e ainda juntou umas tiradas poéticas ao discurso.
O primeiro ministro cessante compareceu e sentou-se no friso das autoridades. Esteve impávido e sereno. O primeiro ministro indigitado também compareceu e sentou-se na assistência misturado com os ministros do Governo cessante.
As palmas aos discursos, vistas na televisão, dividiram-se. O Presidente foi mais aplaudido do que o Presidente da Comissão. Que se visse, os governantes cessantes não aplaudiram o discurso do Presidente da Comissão. Paulo Portas acenou afirmativamente com a cabeça a cada passo do “discurso-programa” do Presidente para a agricultura (a pensar, adivinhava-se, que ninguém conhece melhor que o agora Presidente, Primeiro Ministro da altura da chegada da fatia grossa dos fundos estruturais, a génese do estado a que a agricultura chegou). A televisão não mostrou nessa altura o rosto de Passos Coelho.
No final, Sócrates demorou-se e Passos subiu ao palco para cumprimentar Ferreira Leite acabada de condecorar. De relance, Sócrates e Passos espreitavam-se mutuamente enquanto falavam com terceiros. O perímetro visual de ambos mostrou estar em bom estado porque não chegaram a cruzar nem olhares nem o resto.
Os “candidatos a qualquer coisa” acotovelavam-se para cumprimentar Passos que correspondeu efusivo, por vezes com ar desconfiado (com razão, diga-se).
A avaliar pelos sorrisos irónicos que se descortinaram nos rostos de alguns dos convidados sentados na plateia, o discurso do Presidente da Comissão trouxe à memória de alguns deles factos do passado, sobretudo na parte em que pediu apuramento de responsabilidades pela crise. Podia adivinhar-se que nas suas mentes passava o filme da biografia do orador: deputado pelo PS, Secretário de Estado do Comércio Externo no IV Governo Provisório, ministro do Comércio e Turismo e da Agricultura e Pescas no I Governo Constitucional. Afastado da política.
No final, vistos do meu sofá, todos pareciam felizes (Primeiro Ministro e ministros ainda em funções, incluídos) certamente a pensarem que nunca os discursos do 10 de Junho, sempre muito críticos, se dirigiram tão directamente aos próprios oradores.

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Abri a televisão. Os dois presidentes estavam bem um para o outro. Incomodado, fechei o aparelho, fui à estante buscar os Lusíadas, e sentei-me no meu sofá a ler Camões. Que melhor se pode fazer no dia 10 de Junho?
Eu daria tudo para encarnar o espírito de Camões, durante o tempo suficiente,para cantar em estrofes inflamadas o patriotismo daquêles oradores com rabos de palha.
Tudo isto é mui baixo, triste, miserável
sobretudo quando é um tal guru a fazer estes pobres papéis…
Estamos assim….
temos que voltar esta pagina da nossa historia, bem e rapidinho…
abraço
O Moralista Inimputável do Regime
Já ano passado o agora aparentemente vitalicio presidente das com.do 10 de Junho me tinha surpreendido.
Afastado da guerra colonial por razões presumo respeitáveis e de ordem académica, enquanto a juventude da sua altura se batia em África , aprimorava ele a sua consciência democrática na civilizada Europa.
Apesar disso, produziu perante a formatura militar, onde pela 1ª vez “desfilaram” ex-combatentes da guerra colonial, um discurso impróprio de quem se tinha á guerra baldado, mas de enorme sabugice para aqueles velhos tropas sedentos de reconhecimento. Acusou na altura a Nação de inconsiderar os seus ex-combatentes, único argumento que consola quem participou numa guerra perdida.
Este ano foi ainda mais longe. Esquecido do seu passado politico, onde emerge a sua acção de vingador da classe agrária alentejana, enquanto ministro da agricultura de Mário Soares, materializada no desmantelamento da reforma agrária do PCP sem uma alternativa minimamente consistente e de futuro, produz um conjunto de acusações triviais, bebidas numa qualquer mesa de café e ao alcance de qualquer mentecapto.
É absolutamente inadmissivel que a data dita de “dia de Portugal” seja capturada por qualquer auto-iluminado, partidário ou pseudo independente para retirar dividendos da disputa politica partidária.
Porque é disso que se trata e foi disso que o discurso de António Barreto tratou.
É por isso uma atitude lamentável que não honra o espirito que deve presidir a uma comemoração que a todos os portugueses interessa.
A arrogância moralista e intelectual, assumida em circunstâncias em que o consenso é requerido causa desprimor a quem a exibe e torna o individuo inimputável civicamente.
Tal e qual! E mais nas entrelinhas. Parabéns!