A propósito de um artigo: polémica e tiros de pólvora seca

Deu polémica e tiros de pólvora seca a publicação (não imediata) do artigo de Pezarat Correia no Diário de Notícias,  intitulado PAULO PORTAS MINISTRO? O “caso” foi conhecido através de vários blogs e sites onde, primeiro, foi publicado com a menção de ter sido “censurado” pelo DN.

O  DN publicou o artigo, pelos vistos com um dia de atraso relativamente às expectativas do seu autor o qual, talvez devido à ausência de confirmação de que o mesmo seria publicado, dele deu conhecimento a terceiros que se encarregaram de o colocar na Internet.

Com a publicação do artigo e de uma nota da Direcção explicando o atraso, o DN retirou-lhe todo o “encanto”, já que deixou de pertencer à categoria de “artigo censurado” perdendo assim grande parte do seu valor simbólico.

O DN não quis seguir o caminho do seu “irmão” Jornal de Notícias que, há tempos, recusou publicar uma crónica de Mário Crespo onde este relatava uma conversa de José Sócrates “com um “executivo de televisão” a falar de si, em voz alta, no restaurante do Hotel Tivoli, pondo em causa, segundo a fonte de Crespo, a sua saúde mental.

Tal como agora o de Pezarat Correia o artigo de Crespo foi publicado na Internet.  Crespo, que já então dispunha de uma hora diária na SICN onde “crucifica” e “endeusa” quem ele quer, queixava-se de não ter onde se exprimir. Um imenso drama que percorreu o País e a que o Expresso viria, meses depois, a ser sensível compensando-o com  um espaço quinzenal onde o “censurado” exerce  finalmente o seu direito à opinião.

O JN era então dirigido por Leite Pereira que não teve medo da campanha levada a cabo por Crespo que teve do seu lado a SIC, a Impresa, os partidos da então Oposição e até  a 13.ª Comissão Parlamentar onde Crespo exibiu uma t-shirt alusiva ao acontecimento. Foi uma campanha dura que meteu queixa à ERC que deu razão a Leite Pereira.

Pesem embora as diferenças entre os dois artigos, ambos contêm acusações directas e concretas, baseadas em alegados factos, a pessoas com responsabilidades públicas – um era primeiro ministro, outro prepara-se agora para ser ministro.

O Jornal de Notícias justificou a não publicação do artigo de Crespo, entre outras razões, por o relato de uma conversa privada contrariar a prática editorial do jornal; por não ter sido feita a audição das partes com interesses atendíveis no caso (desde logo, os intervenientes na conversa relatada); e por se tratar de  um artigo de opinião escrito por um jornalista que relatava factos em primeira mão, que não noticiou no seu espaço na SICN.

O Diário de Notícias não seguiu o mesmo caminho e decidiu publicar o artigo sobre Paulo Portas. (Desconheço se tomou a iniciativa de “oferecer” as suas páginas ao visado para defesa do seu bom nome.)

Temos assim, dois jornais, dois directores, duas decisões.

Conforme a ERC assinalou no caso JN, “no quadro jurídico-normativo que rege a actividade da imprensa e dos jornalistas, o Director de uma publicação surge como o primeiro guardião dos valores dessa mesma publicação, cabendo-lhe elaborar o respectivo estatuto editorial, orientar, superintender e determinar o conteúdo da publicação, presidir ao respectivo conselho de redacção e representar o jornal perante quaisquer autoridades, conforme prevê o artigo 20.º da Lei de Imprensa.”

Foi no exercício livre desses poderes de orientação que os dois directores decidiram, num caso,  a não publicação, no outro, a publicação dos artigos.

Pode concordar-se ou discordar-se de qualquer das  decisões. Mas não pode questionar-se a legitimidade de ambas.

 

About these ads
Esta entrada foi publicada em Jornalismo. ligação permanente.