Punhos de renda e luvas de pelica


Nestes dias de interregno, em que um governo está quase a ir e outro a vir, os média tornam-se espaços de paz e concórdia.  Os jornalistas falam com cuidado e punhos de renda do novo governo e os comentadores andam ainda a tactear à espera de perceber o que aí vem.

Basta ver o Mário Crespo e os seus convidados: temas suaves, questões de fundo, o professor Cantiga e o inefável Medina Carreira (há sempre um novo livro para lançar, que a produção é muita) tudo muito luvas de pelica.  Tirando os frente-a-frente – que nunca se sabe como acabam, sobretudo nos dias em que estão lá  José Luís Arnaut, Paula Teixeira da Cruz, Luís Fazenda, Vítor Ramalho, Alfredo Barroso – a SIC N está um sossego!

Mais adiante, na noite,  em todos os canais debate-se o governo, as pastas, os ministros, os ministérios, o PS e os seus candidatos a líder, o Bloco e o Louçã…

Apenas o  “ainda” (como os jornalistas gostam de dizer) Ministro das Finanças veio esta terça-feira desviar as atenções do novo governo, ao ser  assediado, em Bruxelaspelos jornalistas ali destacados, com a pergunta que geralmente fazem às  vítimas de um desastre ou às que acabaram de perder um ente querido: “como se sente?” (referiam-se ao facto de a reunião dos ministros do Eurogrupo onde se encontrava ser a sua última reunião como ministro).  A avaliar pelo ar sorridente com que se apresentou, Teixeira dos Santos parecia sentir-se muito bem e até convidou os correspondentes portugueses  para um almoço de despedida.

No meio da acalmia e da descompressão mediáticas com que decorrem estes dias ouvem-se ainda assim algumas alarvidades, como aquele jornalista que dizia que “o PS está em estado comatoso” (deve pensar que em democracia as derrotas eleitorais são o fim do mundo) ou  Carrilho a dizer que é um” comentador livre” (não se sabe quem antes o amordaçava, mas imagina-se), não falando já nas opiniões dos candidatos a um lugar na nova maioria, uns  a dizerem que o Governo deve ser “de guerra”, outros  que “teóricos” no governo não senhor que isto é para quem conhece “a máquina” e sabe pô-la a funcionar.

Entretanto, alguns defendem que tendo negociado e assinado o acordo da troika o PS se encontra “de mãos atadas” perante tudo o que o novo Governo queira fazer para o aplicar. António Costa já veio  esclarecer que o PS se vinculou ao acordo com a troika e não ao programa da nova maioria. Não se sabe, porém, o que sobre isso pensam os candidatos a líder.

Vai ser estimulante ver como as “pedras” se posicionam nos próximos tempos e também como é que os média serão capazes de conciliar a indisfarçável  simpatia que manifestam pelo novo poder com a equidistância a que “os ossos do ofício” os irá obrigar. 

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3 respostas a Punhos de renda e luvas de pelica

  1. Obrigada, José, é sempre bom saber que podemos contribuir para a “desintoxicação” …

  2. José diz:

    É obrigatorio visita-la diariamente para eu ficar desintoxicado do

  3. Toro diz:

    Os media vão-se comportar como sempre o fizeram, com um apoio a esta maioria. Daí resultará uma falta de escrutinio do novo governo com informação a ser omitida, desvirtuada e manipulada, como aconteceu nesta campanha eleitoral, que devia ser objecto de um estudo caso houvesse neste País pessoas livres.
    O quarto poder em Portugal não funciona, ou melhor, só funciona num sentido. É um imenso PSD.
    Construido ao longo dos anos, tendo como genese o famoso concurso de atribuição de licenças de televisão no tempo de Cavaco Silva, o afastamento sistematico de varios decanos do jornalismo e a emergência do homus murdochianus como paradigma. Este enviesamento unico a nivel europeu corre o risco de se tornar ainda mais claustrofobico com a alienação de um canal da RTP a privados. Como não existem grupos de media editorialmente de centro esquerda, mas sim de uma gama que vai de laranja carregado a laranja claro, temos que no panorama informativo português não haverá a garantia de liberdade informativa plural e independente. Mais preocupante se torna quando se vê que à esquerda, nomeadamente no PS, que é o partido
    com maiores responsabilidades, não se mexe uma palha com esta situação, mesmo com a imolação do seu mais recente líder. Interessam mais agendas pessoais e a telegenia que possam alcandorar os politicos a futuros cargos internos ou como futuros comentadores pagos em programas que simulam debates. No geral a classe politica está submetida ao formato demagogico e populista da televisão.
    Não acredito na informação que se faz em portugal. Se é que se faz informação.

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