O professor Marcelo entrevistou este Domingo, no seu espaço habitual na TVI, o banqueiro Carlos Santos Ferreira, Presidente do BCP. A entrevista versou sobre a situação da Grécia e a exposição do BCP à dívida grega, as medidas da troika e o seu impacto na banca portuguesa. O banqueiro deixou uma mensagem de optimismo sobre a capacidade de Portugal ultrapassar a crise.
A presença do presidente do BCP no espaço de comentário do professor Marcelo não deixa de ser insólita apesar de, aparentemente, surgir na sequência de outros convites de Marcelo a figuras do espectáculo, representantes de “causas” de solidariedade, pessoas que de algum modo se distinguem ou têm algo de importante para dizer.
É claro que um banqueiro tem sempre algo de importante para dizer, assim o queira. Porém, em geral, os banqueiros (com a excepção de Fernando Ulrich, presidente do BPI, o mais mediático, talvez devido ao facto de ter sido jornalista) só vão à televisão em momentos especiais, cultivando até um certo distanciamento que lhes confere uma aura de poder e mistério. O caso mais paradigmático é Ricardo Espírito Santo, como referi aqui.
O que parece insólito é o facto de Santos Ferreira se ter disponibilizado para representar o papel de “figurante” num espaço onde a “vedeta” principal é o próprio Marcelo, sendo também ele quem dita as regras desse “seu” espaço. Foi neste contexto que o banqueiro aguardou que o professor fizesse a habitual apresentação de livros – que desta vez demorou menos tempo do que o costume apenas porque, conforme informou, Marcelo se esqueceu de meter os livros no carro antes de ir para a TVI.
Não se sabe se depois da “entrevista” Santos Ferreira ficou a ouvir o resto do programa do professor e a sua apreciação sobre os membros do governo.
Parece óbvio que Santos Ferreira foi ao programa de Marcelo porque pretendeu “passar” uma mensagem específica num espaço eminentemente político onde o que ali se diz vale não apenas pelo seu valor “facial” mas também pela repercussão que adquire nas múltiplas réplicas que provoca.
Santos Ferreira viu no programa de Marcelo o espaço e o interlocutor mais eficazes para minimizar o facto de o BCP ter 700 milhões de euros de exposição à dívida grega. Essa é (parece-me) a explicação mais lógica para a sua presença naquele programa. Porque não é “normal” um banqueiro ser entrevistado por um político-comentador num espaço que é uma ”reserva” deste último.
Como tenho referido, o comentário político foi, entre nós, capturado em grande parte por políticos profissionais no activo ou por antigos detentores de cargos de direcção partidária. O que é interessante e algo insólito é um banqueiro, presidente do maior banco privado português, ter percebido que o programa do professor Marcelo era um bom espaço para deixar uma mensagem sobre a “saúde” do seu banco.
Percebe-se a escolha do banqueiro. O professor Marcelo não está vinculado às regras da entrevista jornalística, pelo que se limitou a ouvi-lo, cedendo-lhe uns minutos do seu tempo televisivo.
Obrigada, Ana Paula, um abraço e volte sempre.
Carissima Estrela Serrano,
Se me permite, faço link para a minha rubrica “Leituras Cruzadas” no “A Nossa Candeia”.
Grata pela seriedade e frontalidade a que nos veio habituando num tempo e num espaço onde o rosto da verdade se dissimula em estratégias e pseudo-estratégias que, de tão caricatas e grosseiras, chegam a ser atentados à inteligência dos cidadãos.
Com respeito e admiração, receba o meu abraço amigo e… Bem-haja!