Fernando Ulrich, presidente do BPI, quer acabar com as conferências de imprensa da troika.
Disse o banqueiro que gosta “muito de ouvir o nosso Governo que está a fazer um óptimo trabalho”. Também gosta”de ouvir o nosso ministro das Finanças, que é muito brilhante, competente e até tem mais sentido de humor do que os senhores da troika. Agora ter de ouvir senhores funcionários que não s[abe] bem se são de quinta ou de sétima linha não eleitos democraticamente virem cá dizer-nos o que temos de fazer, por favor poupem-nos».
Não sei se Ulrich, que em tempos foi jornalista, quer só acabar com as conferências de imprensa para calar a troika ou se quer mesmo correr com a troika. É que todos nos lembramos que foram os banqueiros, entre os quais o próprio Ulrich, a pressionar o anterior ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, para chamar a troika contra a vontade do então primeiro ministro José Sócrates.
Devo confessar que até concordo com o banqueiro quando ele diz que nos poupem a ter de ouvir os funcionários da troika virem dizer-nos o que temos de fazer. E também acho, como ele, que o ministro das Finanças tem sentido de humor.
Nunca percebi o deslumbramento dos jornalistas com a troika, revelado aliás desde a sua primeira vinda a Portugal em que o aparato mediático à sua volta levava o “trio troikano” a um sorriso de sobranceria, olhando para nós como pategos. Depois, habituaram-se às câmaras de televisão e estrearam-se numa conferência de imprensa que os jornalistas portugueses, uma vez mais, acharam modelar.
A partir daí os “funcionários de quinta ou de sétima linha” (como diz Ulrich) chegam cá e dizem “como é” perante um governo que não “levanta cabelo”. Agora, a troika quer que os privados baixem os salários e acha que os funcionários públicos são em número excessivo e ganham demais.
O ministro das Finanças, que devia guardar-se para o fim e fazer a sua conferência de imprensa depois da troika fazer a sua, deixa-lhe a última palavra. O ministro Álvaro, a partir de Campo Maior onde foi aprender com o Nabeiro como criar emprego, disse que o Governo está unido contra a proposta da troika de se cortarem os salários no sector privado embora seja preciso contenção.
Por seu turno, o Presidente a República que antes queria também os privados a sofrerem cortes nos vencimentos, vem agora contrariar a troika e dizer que isso seria um erro. António José Seguro também se distancia da ‘troika’ e recusa redução de salários.
Enquanto isto, o primeiro ministro andou nestes dias “de mão estendida” por Angola (como antes se dizia do Sócrates pela Europa).
Depois deste coro contra a troika, a troika veio dizer ao Expresso que o corte nos privados “não é imposição”.

Conclusão: a troika cedeu mas não sabemos se fará a vontade ao banqueiro e se calará.
Se, como penso, tem respeito pelos seus leitores, importa-se de lhes dizer (comprovar) onde é que o P.R. “queria também os privados a sofrerem cortes nos vencimentos”?
Muito obg, pela parte que me toca.