O filósofo que quis ser director de jornal por um dia

É uma excelente edição a de hoje, do Público. Não tenho porém a certeza de que o novo modelo tenha sucesso porque requer tempo para ser lido, interesse pelo aprofundamento das questões, vontade de ir mais longe, de “dialogar” com o jornal.

É verdade que a informação de actualidade está toda nas rádios, nos canais informativos do cabo e, principalmente, na Internet – nas edições electrónicas dos jornais e nas redes sociais. Mas  quem gosta de jornais não passa sem ler as notícias no papel, folhear, voltar atrás, recortar, arquivar. Na Internet tudo passa e tudo se perde (ou quase). Papel e Internet  completam-se mas não se substituem. E depois há as bancas, onde as pessoas passam, vêem as capas e decidem se compram ou não.

O Público de hoje precisa de vários dias para ser desfrutado, analisado, comentado. Ainda não acabei de o ler. De manhã, peguei-lhe e fiquei presa ao destaque – “O que não sabemos sobre nós” – sete páginas ricas e desafiantes. As perguntas que o “director do dia”, o filósofo José Gil, pretende ver respondidas, denunciam a sua qualidade de filósofo, sobretudo de “não jornalista”.

A  “sondagem imaginária” sobre “o que não sabemos” questiona o conceito de “notícia” e até o próprio conceito de “jornal diário”, melhor dizendo, evidencia a diferença epistemológica entre o “acontecimento” e a “problemática”. 

As questões colocadas pelo director-filósofo  são da ordem da “problemática” e não do “acontecimento”. Ora, o jornalismo é sobretudo feito de acontecimentos e mais raramente de problemáticas. A situação dos portugueses, a pobreza, os medos, são da ordem das problemáticas. As greves, as pessoas que morrem de fome ou de frio são da ordem dos acontecimentos. São estas últimas que alimentam as notícias e não as primeiras.

O jornalismo de referência é feito destas duas componentes. Mas enquanto a primeira requer investigação, trabalho de recolha e de tratamento de dados (muitos dos quais disponíveis mas não trabalhados), a segunda requer vozes, rostos, discursos verbais e visuais. É destes que vivem os média.

Daí que muitas das perguntas que a “sondagem imaginária” apresenta como “sem resposta”, na realidade a tenham. Simplesmente, essas respostas não se obtêm telefonando para uma fonte oficial (como acontece na generalidade das notícias). Obtêm-se consultando estatísticas, cruzando dados, criando bases de dados próprias. É um trabalho permanente que nenhum jornal português ou outro média realiza com persistência, rigor, competência (diga-se que o Público procura ultimamente esse caminho mas é ainda menos que meio caminho). 

Seria muito útil para os portugueses e para quem dirige os destinos do país que existisse um jornal português capaz de fazer esse trabalho. Se o Público conseguir temos de agradecer-lhe.

O filósofo que quis ser director por um dia, fez um jornal interessante mas as edições que se seguirem não podem ser só as respostas ao “vazio” que ele imaginou. 

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2 respostas a O filósofo que quis ser director de jornal por um dia

  1. Pingback: Cinco ideias erradas que estão a prender as redacções ao passado

  2. Brilhante análise. Eu adorei o jornal, apesar de concordar com o fato da capa ser pouco atrativa.

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