Vendo bem as coisas, os militares de Abril, e com eles Mário Soares e Manuel Alegre, fizeram bem em não comparecer às cerimónias no Parlamento pelos motivos que invocaram: o Governo está a destruir as conquistas de Abril. É que com essa atitude provocaram reacções em cadeia. Vejamos:
- O Governo encheu-se de brio e quis mostrar o seu amor à revolução, surgindo ostensivamente de cravo ao peito;
- O Presidente não levou o cravo mas fez uma revisão da matéria e concluíu que os últimos anos (quase todos dos Governos Sócrates) foram de grandes progressos na Ciência e noutros campos, e que vale a pena dizer isso lá fora.
- O Governo, que estava à espera que o Presidente voltasse a falar de “iniquidades” e de “limites para os sacrifícios”, ficou confuso, não percebeu nada do que o Presidente queria dizer com aqueles elogios do passado recente, mas resolveu comentar que o discurso foi muito bom.
- A esquerda, embora com nuances, também estava à espera que o Presidente falasse da situação actual e se referisse aos problemas dos “mais fracos e desprotegidos” e criticou o discurso do Presidente por essa ausência.
- O PS, que fez o melhor discurso da sessão, era o mais confundido com o discurso do Presidente. Aos primeiros “acordes” da voz presidencial ouviu-se vozearia vinda da bancada socialista, atónita, certamente a pensar que estava a ouvir mal. Na bancada do PSD, os deputados abanavam a cabeça de reprovação pelo barulho dos socialistas (os do PSD furiosos com o Presidente mas a fingirem-se zangados por causa do ruído, no fundo desejando que ninguém ouvisse os elogios do passado que o Presidente estava a fazer).
- Sem querer criticar o elogio do Presidente à obra dos seus últimos governos, o PS lamentou que o Presidente não se tivesse detido mais no momento (leia-se, no Governo) actual.
- Houve ainda os que compararam o discurso de hoje do Presidente com o da sua posse, altura em que o “passado recente”, que hoje elogiou, lhe parecia um desastre.
Conclusão:
Se os militares de Abril tivessem ido às comemorações, e Soares e Alegre também, os ministros não tinham (quase em uníssono) posto o cravo na lapela (talvez apenas um ou outro); o Presidente tinha criticado o governo e falado em “iniquidades” e “limites para os sacrifícios”; o PS tinha elogiado amplamente o discurso do Presidente; e o Governo não teria gostado mas teria dito que é a ele que compete governar.
Parece um pouco “esquizofrénico” mas a ausência dos militares de Abril mudou a “realidade”…
Se a hipocrisia política pudesse ser convertível em euros,seria mais que suficiente para o pagamento integral da dívida pública.
Muito bem observado.Reparou que aquela fila de ministros parecia uma exposição de mascarados na maldita Terça Feira gorda?
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