Caso Público/Relvas: se foi assim…

Miguel Relvas esteve na terça-feira a responder às questões dos deputados sobre o seu envolvimento com Jorge Silva CarvalhoSobre o caso Relvas/Público, cujos contornos  não estão ainda completamente esclarecidos, convém separar duas questões:

- Por um lado, o telefonema do ministro para a editora de Política e para a directora do jornal, tentando evitar a publicação da notícia ou protestando sobre perguntas que lhe foram enviadas pela jornalista Maria José Oliveira relativas a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias;

- Por outro, as ameaças do ministro, segundo os comunicados do Conselho de Redacção e da Direcção do Público, de que faria “um blackout noticioso do Governo contra o jornal e divulgar[ria] detalhes da vida privada da citada  jornalista”.

No primeiro caso, estamos perante um tipo de pressões com que os jornalistas se defrontam frequentemente, traduzidas em tentativas de influência vindas de individualidades ligadas ao poder político e económico para que determinadas notícias não sejam publicadas ou sejam publicadas de maneira  favorável para os interessados. Geralmente, são efectuadas por assessores ou porta-vozes e, mais raramente, pelos próprios detentores dos poderes. Não sendo aceitáveis, fazem parte do “jogo” relacional entre jornalistas e fontes, sendo que os interesses de ambas as partes os levam a proteger esse relacionamento e daí poucas vezes essas tentativas virem a público.  Veja-se, por exemplo, a dificuldade de um jornalista em denunciar uma fonte que o enganou (geralmente para não a perder). Cito, a título de exemplo, o caso do despedimento de Domingos Paciência. Veja-se também a dificuldade de os jornalistas criticarem certo tipo de pessoas e instituições em posição de lhes garantirem acesso a informação privilegiada, por exemplo, fontes do poder judicial. 

No segundo caso, temos (de acordo, mais uma vez, com os comunicados do Público) dois tipos de “ameaças”, a meu ver, de natureza diferente:

- a primeira,  “blackout noticioso do Governo contra o jornal”, atinge o coração da liberdade de imprensa, uma vez que, a verificar-se, representaria uma grave limitação da liberdade de imprensa com prejuízo do direito à informação dos cidadãos, em violação da lei de imprensa e do estatuto do jornalista;

- a segunda, “divulgar detalhes da vida privada da jornalista Maria José Oliveira”, situa-se no plano de violação da privacidade e da intimidade, elevando o nível de coacção para patamares de gravidade até hoje desconhecidos  vindos de um governante para um/a jornalista, para mais enquadrados em toda a discussão vinda a público sobre as ilegalidades cometidas por membros do SIED (com antecedentes na devassa dos contactos do jornalista Nuno Simas). 

E não vale tentar atenuar a gravidade desta situação afirmando (como já li  hoje) que José Sócrates pressionou este e aquele jornalista  sobre notícias da sua licenciatura ou de outras das muitas que foram publicadas sobre a sua pessoa. Ou então, se ele ou outro governante desse ou de outro governo ameaçaram jornalistas com divulgação de aspectos da “vida privada” é pena que os que receberam essas ameaças não o tenham dito na altura…. (voltarei a este assunto)

Ressalvo, uma vez mais, que é preciso conhecer o que foi dito exactamente pelo ministro Miguel Relvas à directora e à editora de Política do Público para perceber o que se passou efectivamente.

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2 respostas a Caso Público/Relvas: se foi assim…

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