O jornalismo como écran de telemóvel

As notícias das últimas semanas sobre as secretas e o ministro Miguel Relvas, confirmam que a forma como as instituições da Justiça gerem a informação e os seus contactos com os jornalistas é desastrosa, contribuindo para a falta de transparência e a degradação da imagem da justiça e da política. Contamina, além disso, o jornalismo, transformando os jornais e as televisões num gigantesco écran de telemóvel. 

Ao que sabemos, a fonte principal em que se baseiam a maior parte das notícias é o despacho de acusação do DCIAP que está, em parte, acessível aos jornalistas, uma vez que há documentos anexos ou partes do processo que não o estão.

O que chega aos cidadãos, através de jornais, rádios e televisões é o resultado de selecções feitas por vários agentes da justiça e pelos jornalistas.

Vai-se sabendo, por exemplo, neste pequeno excerto da peça da revista Sábado de ontem, que não podemos conhecer o conteúdo literal dos sms a partir dos quais construímos as nossas percepções dos acontecimentos.

Temos, pois, que confiar, em primeiro lugar, na selecção de sms  que um investigador da polícia fez chegar  ao  magistrado, da qual este, por sua vez, selecciona o que pode ficar disponível aos jornalistas. Depois, há ainda a selecção feita por cada jornalista consoante o que interessa mais ao seu jornal.

De selecção em selecção, há ainda a restrição de não se poder conhecer o texto  exacto do sms. Só citações parciais e interpretações dos jornalistas. Frases no condicional e, em vez de afirmações em concreto, “sugestões” de sms.

Chegamos assim a frases como esta :O ministro garantiu ontem, no Parlamento, não ter tido qualquer contacto com Silva Carvalho ou a Ongoing após tomar posse. Porém, o SMS sugere que terá tratado de um assunto relacionado com um deles ou os dois”.

Há também peças como esta, da revista Visão, em que se diria ter o repórter presenciado o momento em que “depois de se sentar, o técnico superior do SIED  fica boquiaberto…” 

E também surgem perplexidades, como as traduzidas nesta peça do Jornal de Notícias:

É, pois, um sub-mundo que surge ante os olhos dos portugueses, mau na sua substância e péssimo na maneira como dele temos conhecimento. O resultado não pode ser pior. A orgia informativa em que temos vivido mistura tudo, já esquecemos coisas essenciais deste processo (ou que nos parecem essenciais) nem sabemos se o que está a ser divulgado é mesmo o essencial.

Não sabemos ao certo quem fez o quê e do que foi feito o que é lícito e ilícito.

Sabemos porém algumas coisas:

1. que um ministro ameaçou um jornal e uma jornalista com a divulgação de um elemento da sua vida privada, que até era falso, com o intuito de evitar a publicação de uma notícia (afinal parece que é coisa de somenos importância);

2. que o mesmo ministro, que vai presidir à privatização da RTP, não queria que se conhecessem os seus contactos com um ex-espião que foi trabalhar para a principal candidata a essa privatização;

3. que as secretas portuguesas são um ninho de incompetentes sem rei nem roque;

4. Que o país não dispõe de instâncias de fiscalização com competência e vontade de fiscalizar o que quer que seja;

5. Que os governos eleitos mal chegam ao poder ficam dependentes de forças instaladas e não eleitas (económicas, financeiras, judiciais) que permanecem  enquanto eles entram e saem;

Sabemos, em suma, que este país precisa urgentemente de uma desinfecção!

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