Vivemos um tempo em que a demagogia e a falta de rigor se tornaram regra. Até pessoas insuspeitas como o deputado Paulo Rangel, pessoa de indiscutível brilho intelectual, podem cair nessa tentação.
Na sua coluna semanal no Público, Rangel tem sempre um pequeno apontamento sobre o SIM e o NÃO da semana. Desta vez o NÃO é uma crítica à administração da RTP por não ter reconduzido o provedor do ouvinte. “Não se prestigia”, diz Paulo Rangel.
Não se prestigia, porquê? Só porque o deputado gosta de ouvir o provedor? Um mandado “renovável” significa que tem de ser renovado? Mais valia então o legislador ter aumentado a duração do mandato! Na maioria dos casos, os mandatos dos provedores estrangeiros não são renováveis. E, em Portugal, os dois anteriores provedores do ouvinte exerceram o mandato por dois anos, tal como o actual. No Diário de Notícias, os mandatos dos provedores não são renováveis.
José Nuno Martins, o primeiro provedor do ouvinte exerceu o cargo dois anos.
Adelino Gomes, que lhe sucedeu, também exerceu o cargo por dois anos . Em ambos os casos não houve renovação. Nenhum deles se queixou.
Um dos problemas dos nossos colunistas políticos é cavalgarem o que lhes parece popular.
É normal que alguém que gostou de exercer um cargo com a consciência de que o exerceu bem, gostasse de o repetir. Mas daí a pensar-se que adquiriu um direito de renovação vai uma enorme distância. Por vezes, em Portugal, temos dificuldade em distinguir coisas tão simples como esta.
Aliás, se alguma coisa haveria a modificar na Lei 8/2007 é a de que os mandatos não deveriam ser renováveis, devendo o provedor exercer as suas funções sem dependências técnicas ou administrativas da empresa cujos conteúdos lhe compete avaliar. A proximidade com os profissionais e chefias pode conduzir a constrangimentos susceptíveis de influenciar a sua acção.
Nem se percebe que conflitos possa ter o provedor com o Conselho de Administração da RTP, uma vez que as competências do provedor incidem sobre conteúdos e esses são da responsabilidades dos directores. Com a administração da empresa discute, quando muito, a remuneração que lhe é contratualmente atribuída.
Mas neste País é assim, qualquer coisa dá para fazer demagogia.
(Registo de interesses: fui em tempos, na RDP, colega dos três provedores do Ouvinte. Aprecio os três, cada um na sua especificidade. E também fui provedora dos leitores do Diário de Notícias e gostei muito de o ter sido- sem renovação de mandato! Tive questões com os directores e alguns jornalistas. Mas nem conheci a administração!)
Interessante.