O excerto acima refere-se a um artigo da revista Sábado. Foca um tema sobre o qual tenho escrito repetidamente neste blog. Correspondentes estrangeiros de países europeus e dos EUA e jornalistas portugueses que trabalham nesses países admiram-se que nos media portugueses “políticos sejam pagos para comentarem assuntos em que são parte interessada”. Questionam também a “febre declarativa” e os directos televisivos de eventos político-partidários.
A que se deve esta “originalidade portuguesa”?
Podemos abordar a questão sob vários ângulos: 1) olhando para a “cultura jornalística”, isto é para a maneira como os jornalistas portugueses encaram o seu papel e a maneira como o traduzem na sua prática profissional; 2) incidir sobre a organização do sistema mediático em Portugal; 3) privilegiar uma abordagem sob o prisma da “cultura política”, uma vez que a “originalidade” a que se refere o artigo respeita essencialmente ao jornalismo político. Como um post não é um projecto de tese, tentarei, numa pincelada, tocar nas três vertentes.
1. A “cultura jornalística” em Portugal, tem algumas heranças marcantes: desde logo, os anos de censura e as suas consequências na formação dos jornalistas; a criação tardia de escolas de jornalismo com prejuízo da reflexão sobre o “métier” que fosse além da aprendizagem feita na “tarimba”; a ausência de estruturas horizontais de co e auto-regulação com autoridade sobre os jornalistas na responsabilização de questões éticas e deontológicas; no pós-25 de Abril, a dificuldade do campo jornalístico em repensar o seu papel no novo quadro político, a preponderância da figura do jornalista-militante, aqui e ali a ideia do jornalismo como “vanguarda”.
Esta herança marcou o jornalismo político em Portugal como um jornalismo de “corredor”, de “recados”, de fontes anónimas que vive de comentários e de declarações dos governantes e da oposição a comentarem-se uns aos outros. É um jornalismo preguiçoso, feito de telefonemas, de conversas nos corredores do Parlamento, de longas esperas por uma declaração, um off, um exclusivo. É o “pack journalism” a todas as horas. Onde há um evento e um discurso de governante ou de um dirigente partidário há notícia e há declarações. Se um partido não aparece e não fala, os media não falam dele. É um jornalismo “pé de microfone”, mesmo que possa parecer por vezes “elaborado”. Mas não o é, basta ir à origem do que é noticiado.
2. O sistema mediático é causa e consequência desta cultura jornalística: três canais temáticos informativos, trabalhando 24 horas por dia num país com a dimensão de Portugal, que não lê jornais, com baixas qualificações académicas e elevados índices de iliteracia, é também uma originalidade! Como se resolve o problema dos conteúdos destes canais sem gastar muito dinheiro? Resolve-se com debates e mais debates. Convidam-se ex-políticos, políticos no activo, politólogos e economistas e eis uma grelha de emissão quase completa. Mesmo pagando cachet aos convidados, é mais barato, dá menos trabalho e demora menos tempo do que destacar equipas para a investigação dos problemas do nosso tempo e do nosso País.
3. A “cultura política” favorece as duas componentes anteriores. Os políticos sabem que se não falarem, se não organizarem os seus eventos não aparecem e em política não aparecer é não existir. E como os jornalistas precisam de notícias e os políticos precisam de ser notícia, é do interesse de ambos comentarem tudo o que é dito. É vê-los – deputados e jornalistas – nos Passos Perdidos, em dias de decisões, à espera da sua vez de se fazerem ouvir. É um espectáculo triste de se ver – os jornalistas de serviço nos canais do cabo ”despachando”, à vez, os deputados-comentadores.
Se um partido não tiver cobertura de um evento partidário, mesmo que nada de relevante tenha decidido, vai de certeza queixar-se. É um círculo vicioso, porque se os jornalistas não querem, não podem ou não são capazes de decidir o que é ou não noticiável em função da sua importância para a vida dos cidadãos e da comunidade, se não têm capacidade para estudar dossiês e se limitam a ler o “sumário executivo” dos imensos relatórios que lhes chegam às mãos, se a informação que passam se reduz a declarações dos actores políticos, não podem depois estranhar que todos os partidos e protagonistas políticos pretendam beneficiar da sua preguiça ou da sua incapacidade de produzirem informação independente das agendas político-partidárias.
A originalidade portuguesa dos comentadores-políticos tem uma lógica que assenta sobretudo nestes três pilares.
(É evidente que, como em tudo, há em Portugal, sobretudo na imprensa, oásis de jornalismo que vai além deste círculo vicioso).

O jornalismo português á, actualmente, um centro de informação baseada em relatos que, obviamente, podem conter informação verdadeira ou falsa. Não existe reflexão ou investigação por parte dos jornalistas, o que confere falta de veracidade aos artigos tal como a falta de uma componente de interesse, digo, uma componente cultural e socialmente interessante.
É possível fazer informação acerca do mesmo assunto mostrando diferentes perspectivas, no entanto, só uma é mostrada: a do interveniente do relato. Sendo a única informação na posse do público, este toma-a por verdadeira e isso pode ser, ou é, na maioria dos casos, um erro. Neste contexto, o jornalismo está a tornar as pessoas ignorantes, por exemplo, relativamente à situação política.
Não nego a importância do relato, mas esta deve servir como base de exemplo, de recolha de informação, etc, na fase da investigação e não como a única fonte da notícia ou, até mesmo, a notícia em si.
_ Esta é apenas uma opinião ou perspectiva. O intuito é reflectir sobre a sua veracidade. _
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Concordo. No entanto gostaria analisar o tema de uma forma menos elaborada perguntando:
Se é ponto assente na vox populi que os políticos são corruptos- conceito este que foi propalado e explorado até à exaustão pelos jornalistas- porque é que não se utilizam os mesmos critérios para escrutinar o trabalho jornalístico? É tabu? Os jornalistas são puros, porque sim?
Não têm interesses ideológicos, económicos ou carreirísticos?
Posto isto, prefiro embarcar numa “teoria da conspiração” que explica, na minha modesta opinião, a sabujice e falta de pluralidade que existem hoje em dia nos canais informativos portugueses (e não só). Esta linha de raciocínio conta-me que o mito da incorruptibilidade e isenção é inculcado no subconsciente de uma população com o propósito de criar uma aura de credibilidade, permitindo que se “venda” às massas qualquer ideia, por mais estapafúrdia que nos pareça.
Não me canso de divulgar este excelente documentário que ajuda a suportar os meus pontos de vista:
Uma elite intermédia – que se considera um poder, mas não passa de um instrumento-colabora com a verdadeira elite economico/financeira, manipulando a informação de forma a não permitir ameaças ao status quo, tem o poder de trucidar qualquer político (outro instrumento) que se atreva a pingar para fora do penico. Relvas está a sentir alguns (poucos) dos espinhos pelos quais Sócrates passou; porque se meteu com o tio Balsemão provocou algum acompanhamento mediático mais exaustivo, senão já tinha sido tudo abafado pela “solidária” comunidade jornalística.
Numa sociedade democrática, em teoria, caberia aos jornalistas excrutinar o comportamento das instituições informando objectivamente o elemento fulcral da democracia: O Povo
Ora, se estes se consideram uma elite que obtém substanciais vantagens em agradar a quem detém “aquilo com que se compram os melões”,… what’s the point?
Agora, vou dormir.
Desenvolverei numa futura oportunidade, se tal me for permitido, outras considerações sobre este tema pelo qual estou um pouco obcecado ao ponto dos amigos me apelidarem de “radical”.
Concordo,inteiramente, com a sua análise e confesso-lhe que muitas vezes me interrogo sobre qual é o papel do ensino que se pratica nas escolas de comunicação.
E, a propósito do comentário de Jorge Patricio deixe-me acrescentar que,frequentemente, ao ouvir os noticiarios da Antena 1 me parece estar em presença de uma especie de revista de imprensa.
A sua reflexão é oportuna e assertiva. Deixo apenas um exemplo do que comenta. Por casualidades da vida (estou a conduzir nessa altura do dia) oiço as emissões regionais da Antena 1 depois de almoço. E oiço em diferentes regiões do País, pelo que posso comparar. Pois esses espaços informativos são preenchidos quase sempre na totalidade com press realeases das autarquias ou de diversas entidades pùblicas que depois são sonorizados com declarações dos autarcas (presidentes das Câmaras, Vereadores, etc), ou então pelo Sr Director disto ou daquilo.
Quase sempre todas as notícias tem um interveniente ligado ao Estado ou Administração Pública.
Quem ouve aquilo e reflecte um pouco, fica com a sensação que nas “regiões” os temas das notícias se esgotam nessas entidades.
Mas a realidade é como você diz (e neste caso concreto da A1 que tem meios mais do que suficientes para fazer melhor): ninguém se levanta da secretária para ir investigar nada. Com dois telefonemas, com a leitura dos resumos da Lusa e dos press releases que se recebem, rapidamente se “despacha” uma hora de rádio e amanhã é outro dia. E os temas abordados muitas vezes são de tal forma intemporais que quase dá para gravar todos os programas no inicio da semana e ficar o resto do tempo bem descansado.
Excelente!
O texto é algo de soberbo e excepcionalmente claro e sentético de parte da realidade do universo jornalístico e da sua relação com a política. Com toda a sinceridade… (sem qualquer necessidade de “favor”).
A análise no ponto 1 é perfeita e refelecte um marco na história da comunicação social em Portugal e do reflexo que tem (ou deixou de ter) nos dias de hoje.
No ponto 2 eu teria ido mais longe. Face à realidade social (onde se incluem os “maus” hábitos de leitura e de sentido crítico dos portugueses) e à dimensão do país é incompreensivel que haja tanto jornal e tantos canais televisivos. Pelo exposto, só seria de esperar que o jornalismo se tornasse num processo mediático, estatístico (audiências) e comercial/económico.
Em relação ao ponto 3 penso que essa realidade e dualidade, há quem a denomine de simbiose (eu acho que em muitos casos, demasiados até, é mais parasitismo), é comum ao universo da comunicação social e da política, à relação entre ambos, em qualquer canto do mundo. Sempre foi uma relação de “amor-ódio” com mais ou menos episódios. A dificuldade reside na altura em que a ética, a deontologia, a verdade precisa de ser colocada em prática: na altura de informar com isenção, rigor e verdade.
Só não percebo a admiração em relação aos directos dos eventos político-partidários. Acho que isso se resume ao interesse informativo e à exigência que o cidadão tem de ser informado numa área perfeitamente de interesse público (que deve, apesar de tudo, ser distinta do “interesse DO público”).