No dia em que o PCP anunciou a apresentação de uma moção de censura ao Governo, logo jornalistas e comentadores vieram dizer que o importante naquela moção era saber que posição tomaria o PS. É claro que a ideia foi imediatamente agarrada pelos deputados e apoiantes da maioria governamental, assim disfarçando a surpresa que a moção lhes causou, que aliás, o primeiro ministro não escondeu no debate no Parlamento nesse mesmo dia.
A surpresa reside no facto de o PS ter deixado que a ideia de que a moção o incomoda ganhasse terreno e que, passada uma semana, os jornalistas e comentadores continuem a discutir, nos programas de debate que enchem as televisões do cabo, se a moção de censura do PCP é uma moção contra o PS. Surpresa é também o facto de o PS ter alimentado, ou não ter contrariado, a ideia de que o sentido do seu voto a essa moção era algo que podia ser problemático para o partido.
Ouvi ilustres figuras do PS defenderem que o Governo merece ser censurado mas o PS é um partido responsável e o país precisa de estabilidade e não de uma crise, e daí dever abster-se, como se a moção do PCP fosse capaz de criar instabilidade ou crise qualquer que seja o sentido de voto do PS.
O anúncio formal da abstenção, feito pelo líder parlamentar após uma reunião que os jornalistas tentaram dramatizar, não acalmou os comentadores, que continuaram a ver a moção como uma questão quase de vida ou de morte para o PS: se se abstém, não censura o Governo, se vota contra, alia-se ao PCP e ao Bloco.
O PCP, é claro, agarrou a oportunidade com ambas as mãos para, uma vez mais, acusar o PS de se “colar à direita”.
E, afinal, parecia tão simples o PS “matar” a questão à nascença, sem necessidade de anúncios formais sobre o sentido de voto nem invocação de fantasmas de crises que o PCP não tem capacidade de provocar. Bastaria ao PS ter afirmado que lhe cabe gerir a sua própria agenda política e que não é o PCP que dita os momentos e as circunstâncias em que o PS censura ou apoia o governo.
É que, pelo que saíu na imprensa e a crer nos comentadores (vidé esta sexta-feira, na TVI24, o demagogo por excelência deste governo, Carlos Abreu Amorim, a comparar a discussão da moção de censura como uma espécie de “campeonato de segunda” entre o PS e o PCP), até parece que o “censurado” é o PS porque fica sempre mal qualquer que seja o sentido do seu voto.
Ora, o PS seria mais eficaz se em vez de se centrar na crítica da moção do PCP, alimentando reacções bem exploradas por este, se centrasse no governo e no desastre a que as suas políticas estão a conduzir o país.
O argumento da instabilidade política e da crise que a moção do PCP poderia criar é incompreensível para a maioria dos cidadãos, porque instabilidade e crise são hoje o pano de fundo em que vivem os portugueses. Basta ter ouvido o ministro das Finanças esta sexta-feira, dizer, sem dizer, na sua voz pastosa, que o déficit não vai ser cumprido para saber que vem aí mais austeridade, isto é, mais instabilidade e mais crise.