As muralhas da minha infância são Património Mundial!
Foi ali que nasci e cresci até acabar o liceu, depois de anos num colégio de freiras onde as raparigas não podiam nem espreitar no muro que ladeava o recreio e ver os rapazes que andavam por ali à espera que elas saíssem.
Era um tempo de “muralhas”, muralhas simbólicas, muralhas nas cabeças, que não deixavam soltar o pensamento e o agir. Namorávamos às escondidas entre as muralhas de pedra, onde podíamos dar a mão sem ter o Pai ou a Mãe por perto ….
Não tínhamos televisão, mas tínhamos cinema. Ir ao cinema era um momento mundano na vida da cidade. Ficar no balcão ou na plateia era um sinal de estatuto social que separava os ricos dos remediados (os pobres não iam ao cinema).
A missa do domingo, na Sé, era outro momento mundano da vida da cidade. As senhoras e suas filhas vestiam os seus vestidos mais bonitos, “vestidos-de-ver-a Deus”, como se dizia no Alentejo e punham os véus bordados dos tempos das avós. As mulheres não se vestiam ainda de calças, muito menos para ir à igreja.
À saída da missa, no adro da igreja, os Pais ficavam a conversar uns com os outros e nós, os filhos, também.
E havia a maravilhosa comida alentejana, as migas com entrecosto, a sopa de tomate com ovos e figos frescos, a açorda de bacalhau, as febras de porco, a sopa de beldroegas, a tomatada de galinha, a enxovalhada,
a sericaia com ameixas de Elvas…
Era um tempo em que o tempo não contava…
Hoje, já não é assim. Há piscinas na cidade e arredores, há esplanadas e no jardim há baloiços para as crianças e equipamentos para desportos radicais. Falta emprego, é verdade, os espanhóis de Badajoz já não aparecem tanto na cidade. As raparigas namoram à vontade e as “muralhas” de outrora (as do pensamento) foram-se e ficaram apenas as muralhas milenárias, vindas do reinado de D. Sancho II, que agora mereceram da UNESCO a classificação de Património Mundial.
As muralhas da minha infância (as de pedra que cercam a cidade) bem merecem a distinção!

Este texto trouxe memórias desse tempo… Eu andei no Colégio Elvense e uma das actividades era ir assistir à saida do “Luso”
Tomei a liberdade de “roubar” o post para afixar na minha página do FB…
Estrela Serrano, na minha terra não muito distante da sua, os Pobres iam ao cinema, e os menos pobres iam ao Domingo; à Quarta-feira e Sábado. O que eu gostava dos comentários em língua Brasileira, antes do filme começar. Ao contrario dos grandes centros, o interior via muito mais cinema e assistia a mais eventos culturais como o Teatro, e teatros de fantoches como os célebres ” Bonecos de santo Aleixo”.