O excerto seguinte foi retirado de uma peça do jornal Público de hoje, intitulada “Alguns passos fundamentais para o desenvolvimento do processo das secretas”, concebida, segundo o jornal, “a partir de dados do processo judicial das secretas, como transcrição de SMS e e-mails”. Nas duas pequenas peças que assinalo com recorte de lápis vermelho na imagem a seguir (clicar para aumentar o texto) é mencionada a intervenção de jornalistas. É sobre essas que direi algumas palavras.
“Na primeira, identificada com a data de 7 de Agosto, há mais informação do que à primeira vista parece. Diz-se aí que “JSC [Jorge Silva Carvalho, o ex-espião e director do SIED], manda SMS ao director da RTPN, à jornalista do DN, Valentina Marcelino, e a António Cunha Vaz, [director da Agência de Comunicação com o mesmo nome] para que interceda no PÚBLICO, sugerindo que escrevam sobre a guerra Impresa-Ongoing, mencionando os casos secretas e privatização da RTP” (negritos acrescentados no texto).
Na segunda, identificada com a data de 9 de Setembro, diz-se que Silva Carvalho “troca SMS com o adjunto de Relvas, [o jornalista] Adelino Cunha, (que se demite em Maio), que o ajuda a colocar na imprensa notícia de que o envelope teria sido violado, ilibando JSC” (negritos acrescentados no texto).
Estas informações não são novas. Mas o que espanta é que os próprios jornalistas, que têm dado tanto relevo a este assunto (como lhes compete), não tenham também analisado as relações entre o ex-espião e alguns dos seus pares, as quais as escutas e os SMS publicados deixam transparecer.
Estas duas pequenas peças do Público revelam várias coisas, a saber: 1) que o ex-espião queria colocar notícias que interessavam à Ongoing; 2) que o ex-espião tinha confiança e familiaridade suficientes com o director da RTPN; 3) que tinha igual confiança e familiaridade com uma jornalista do DN, cujo nome cita; 4) que, não tendo familiaridade com ninguém do Público a quem se dirigir directamente, usou uma agência de comunicação para servir de intermediária.
O ex-espião Silva Carvalho pretendia, pois, instrumentalizar jornalistas. Nos dois primeiros casos nem precisou de agência, estabelecendo ele próprio o contacto. Tendo ou não conseguido os seus intentos, ousar tentar influenciar directamente jornalistas já diz muito sobre certos relacionamentos entre estes e fontes poderosas.
Os jornalistas, sempre muito críticos sobre o papel das agências de comunicação, teriam aqui fortes motivos para se interrogarem sobre qual dos processos consideram mais espúrio.
No caso da peça sobre o assessor do ministro Relvas, de que se falou mais (pelo menos até à demissão do assessor/jornalista), temos um exemplo de como o corropio entre gabinetes governamentais (ou assessorias de instituições poderosas) e o jornalismo se tornam promíscuas, com jornalistas que temporariamente passaram a assessores a tentarem influenciar e manipular colegas nas redacções.
Os casos citados merecem referência porque um grupo profissional que tem como uma das suas importantes funções escrutinar os poderes não parece capaz de se escrutinar a si próprio.
É caso para dizer que se a hetero-regulação não é perfeita, a auto-regulação nem chega a aspirar a sê-lo porque pura e simplesmente não existe.
