O que mais choca no caso da licenciatura do ministro Miguel Relvas é o descrédito lançado sobre a universidade que lhe atribuíu o grau nas condições em que o fez - equivalências a 32 das 36 cadeiras que faziam parte do plano curricular da licenciatura de três anos e que o ministro conseguiu num ano - e, por arrasto, sobre todos os estabelecimentos de ensino superior privado.
Se houvesse inspecção a sério de cursos ministrados em muitas universidades verificar-se-ia a quantidade de pessoas sem qualificação académica e mesmo profissional (nas respectivas áreas) que “dão aulas”, convidados por serem figuras públicas – políticos, jornalistas, comentadores, etc.. Dão aulas em licenciaturas e pós-graduações sem serem licenciados, ou em mestrados se grau de mestre nem de doutor. Escrevi sobre isso aqui e aqui.
“Bolonha” é um desastre para a qualidade do ensino. Sempre o disse, com conhecimento de causa. Muitas vezes me apareceram em aulas de mestrado, em estabelecimento superior público, numa cadeira de Comunicação Política, pessoas que não possuíam conceitos básicos nem de comunicação nem de política. Em muitos casos, não possuíam hábitos de exposição aos média – não liam jornais, nem viam telejornais e não se interessavam por política. Muitas vezes aconselhei esses jovens a mudarem de curso ou de disciplina.
Na única experiência que tive de leccionar numa universidade privada, tratava-se de uma pós-graduação. Os alunos eram, na grande maioria, licenciados pela mesma universidade. Na altura, eu dava aulas e coordenava uma licenciatura na mesma área numa escola pública de ensino superior. Os meus alunos do primeiro ano tinham melhor preparação do que os alunos (já icenciados) da pós-graduação da privada. E os do 4.º ano (na altura “Bolonha” ainda não existia) nem se fala!
Não sou dos que dizem que o público é bom e o privado é mau. Nem alinho com os que afirmam que agora os jovens não sabem nada e que antes é que era bom. Pelo contrário, os jovens e adolescentes que conheço sabem muito mais do que os da minha geração sabiam na idade deles. Mas não havia, como hoje, a mercantilização do ensino superior, em que muitas escolas e universidades se transformaram em máquinas de fazer dinheiro e pouco mais.
As equivalências que beneficiaram o ministro Relvas são “filhas” dessa mercantilização do ensino superior. Porque, se há estabelecimentos de ensino superior que atribuem equivalências com a facilidade que as notícias dizem que foi concedida ao ministro Relvas, esses estabelecimentos terão certamente muitos candidatos às mesmas facilidades.
O problema da licenciatura de Relvas não é ser ou não uma licenciatura a sério. É haver uma universidade ou alguém dentro dela que, temporariamente, teve o poder de lhe atribuir um grau que, manifestamente, mesmo com “Bolonha”, não podia nem devia ter-lhe sido atribuído nas condições em que o foi.
Concordo plenamente que devia haver uma maior fiscalização dos cursos superiores. É necessário garantir a qualidade de todos os cursos que estão abertos, para bem do futuro do país. Caso contrário, corre-se o risco de encher o país com licenciados e mestres que nada sabem das suas áreas e depois ainda se admiram por terem os empregos para os quais estudaram.
À excepção dos cursos disponíveis em duas ou três universidades de topo, o público em geral não tem forma simples de saber se um determinado curso superior tem ou não qualidade, portanto não tem forma de saber se o investimento (tempo e dinheiro) exigido está alinhado com a qualidade.
Não faz sentido ter cursos superiores abertos sem terem qualidade. Não faz sentido olhar para as universidades privadas como um local para onde os “maus alunos” vão fazer “maus cursos”. Para isso mais valia não existirem. A existência desses cursos sem qualidade apenas serve para *enganar* os alunos interessados e que neles se inscrevem com expectativas de obter uma boa formação.
Concordo inteiramente com o seu ponto de vista. Todas as universidades deviam ser devidamente inspecionadas. Por este andar, qualquer dia começo a ter medo de ir ao médico, já para não falar do recurso a outras profissões!…
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