O eterno retorno dos fogos de verão

Eles aí estão: são os incêndios de verão.

É uma orgia de chamas nos écrans das televisões fazendo regressar um dos géneros mais “nobres” do jornalismo: a reportagem. Os espectadores são transportados aos lugares onde a catástrofe se desenrola. São  cenários desoladores de florestas e casas ardidas, pessoas desesperadas, bombeiros exaustos e impotentes. Repórteres no terreno, de cabelos chamuscados, rostos cansados e transpirados percorrem incansavelmente os locais ardidos.

As televisões investem na cobertura dos fogos, em alguns casos enviando aos locais algumas das suas caras mais mediáticas. As reportagens não são, porém,  todas de igual qualidade. Algumas vezes não escapam à redundância de palavras e de imagens.

Independentemente dos efeitos negativos da mediatização dos fogos – sobretudo pela repetição, ampliação e ambiguidade das imagens – os incêndios  e a visibilidade que lhes  é  conferida interpelam os portugueses sobre o país que temos e as condições em que foi e é possível construir habitações onde os bombeiros não conseguem chegar, como se viu em alguns lugares da ilha da Madeira.

Não deixa de ser curioso que seja através da cobertura dos incêndios  que os portugueses reencontram nas televisões o Portugal rural, esquecido durante o ano. 

Todos os anos os incêndios trazem com eles episódios pitorescos. Este ano  não faltou um  comunicado de Alberto João jardim a pedir “um inquérito à RTP-RDP/Madeira,   ao Ministério da tutela e aos respectivo Conselho de Administração”, por darem “notícias erradas com consequências nefastas para a região.

Os “escândalos” do momento ficam, por agora, em banho-maria, a crise aguarda que a troika diga como vai ser daqui para a frente, o país prepara-se para banhos. O primeiro-ministro pede aos ministros que fiquem por cá, talvez lhes recomende o Algarve que, como sabemos, é um sítio barato para tempos de crise… Sim, porque os que pagam  a crise ficam onde estão…. os outros continuam a ir para os sítios de sempre…

Nestes dias de verão, a televisão conduz-nos a Nietzsche e à sua teoria do eterno retorno. 

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

 

 

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