Qual é o interesse desta notícia, mesmo tratando-se da silly season?
Por um lado, contém uma crítica implícita aos manifestantes por “assustarem a filha do primeiro-ministro”; por outro, destaca positivamente a acção do seu “corpo de segurança pessoal” que tirou o telemóvel de um dos manifestantes que fotografara a criança, devolvendo-o depois de apagar as imagens recolhidas.
É, pois, uma notícia destinada a vitimizar o primeiro-ministro, jogando com a reacção negativa que sempre desperta nos leitores saber que uma criança foi de algum modo molestada;
Mas, por outro lado, a notícia levanta a questão de saber porque é que o primeiro-ministro não protegeu ele próprio a sua filha da exposição aos manifestantes, como, aliás, fez quando em ocasião anterior se dirigiu à praia acompanhado apenas pela mulher, sabendo que os fotógrafos e operadores de imagem o seguiam.
Por muito que repugne (e repugna) a devassa a que hoje em dia estão sujeitos os políticos e as figuras do star system, essa é uma realidade com a qual têm que contar e da qual também beneficiam em determinadas ocasiões. Daí que, contrariamente ao que fez Passos Coelho, talvez seja mais prudente resistir à tentação de querer parecer ”igual ao povo” indo para um areal estender a toalha como o “Zé das melancias”, mas rodeado de seguranças disfarçados de veraneantes.
É preferível passar menos tempo num resort, recatado das objectivas e dos manifestantes, do que fazer-se passar por um cidadão “igual” aos que não têm dinheiro para alugar um chapéu e uma espreguiçadeira…
Querer parecer aquilo que não é – um cidadão “normal”- e depois vitimizar-se pelas consequências é uma forma demagógica e populista de fazer política. Passos Coelho caíu nesse erro.
Não foi certamente por acaso que o JN inseriu esta notícia na entrada “Política”.