Metáforas, sátiras e ironias…

Anda agitado  o Verão português.  O  “caso Freeport” é um “maná” para jornalistas e comentadores  que geralmente nesta altura do ano ficam “secos” de assunto. Este ano não tem sido assim. Dia sim dia não surgem “revelações” sobre o processo. O Público e o Diário de Notícias  rivalizam para ver qual tem mais “novidades” sobre o caso. Os que não têm notícias do Freeport têm pelo menos as declarações do Procurador-Geral da República e da Directora do DCIAP, que são agora os alvos principais de quem opina nos média. O primeiro, porque falou (demais, dizem os críticos); a segunda porque se recusa a falar. A metáfora dos poderes da “rainha de Inglaterra”, usada pelo Procurador Geral na sua entrevista ao Expresso, tem dado lugar aos maiores dislates, até  em  jornais ditos “de referência”, vindos de comentadores dos quais se esperaria algum nível na argumentação. Ora, a metáfora da “rainha de Inglaterra” tem sido frequentemente glosada na política portuguesa, por exemplo, relativamente aos poderes do  Presidente da República,  sem que alguma vez  tivesse causado escândalo. Porquê agora este estrondo? Não se admite ao Procurador Geral que use uma metáfora (não é, aliás, a primeira vez que o faz)? Não se lhe reconhece a possibilidade de ser informal e mostrar  sentido de humor (qualidade que no início do seu mandato parecia agradar aos jornalistas)? Será que o  detentor de um cargo público tem de ser sisudo e “comer e calar”? 

Situação idêntica aconteceu com uma frase do Presidente da ERC, Azeredo Lopes, citada na última edição do  Expresso, onde afirmava que  “a ERC é para homens e mulheres de barba rija. Não para copinhos de leite”. O que por aí já se escreveu sobre isso! Como se não se tratasse de um dos mais conhecidos e ricos provérbios portugueses! Não sendo de crer que quem o criticou não conheça a expressão, deve então entender-se que a crítica provém do facto de a mesma ter sido dita a um jornal  pelo presidente da ERC.  Parece, pois, que em alguns círculos mediáticos se entende que os detentores de cargos públicos só têm direito à palavra em determinadas condições: têm de ser “certinhos” no vocabulário, nada de usar ironias, sátiras, críticas ou outras formas de expressão menos convencionais. Só devem falar quando são perguntados e as respostas devem ser politicamente correctas.  Mesmo que sejam acusados injustamente devem ter cuidado com o que dizem e nada de criticarem jornalistas, quando não, estão a pôr em causa a liberdade de imprensa. Se persistirem arriscam-se a “cair em desgraça” junto dos donos do espaço público.  (continua)

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