Entrevistas

A entrevista de Duarte Lima a Judite de Sousa  foi, segundo a imprensa,  vista por uma média de 1 221 800 espectadores. Na blogosfera mereceu comentários e análises. A mais aprofundada que encontrei  pode ser lida aqui. Trata-se de uma entrevista que merece reflexão, não apenas pelo que nela foi dito pelo entrevistado, mas sobretudo pelo que nela pode ler-se para além do que foi dito por este e pela entrevistadora.

Ao ler hoje no Expresso (link indisponível) declarações de António Lobo Antunes de que “o escritor não distingue o registo de entrevista ou de ficção, porque a vida é a mesma”, proferidas a propósito da polémica criada com uma entrevista sua ao jornalista João Céu e Silva, publicada em livro, onde o escritor  faz afirmações  sobre a guerra colonial que indignaram antigos combatentes, não pude deixar de recuperar o que o historiador Daniel Boorstin escreveu em 1961  sobre  “pseudo-eventos”. Disse ele  que são  acontecimentos planeados, criados para serem cobertos pelos média, ambíguos na sua relação com a realidade, geralmente funcionando como uma auto promoção e cujo sucesso se mede pela amplitude da sua cobertura e pela multiplicidade de novos pseudo-eventos a que dão origem. Boorstin apresentava como exemplos de “pseudo-eventos” a entrevista e a “fuga” de informação. Segundo Boorstin, nos pseudo-eventos o mais importante é o que eles significam, o que os motiva, o momento em que são “dados” aos média e os resultados que pretendem alcançar.

Na era do jornalismo “adversarial e niilista” (Mc’Nair, 2003),  que caracteriza hoje a quase generalidade dos média nem todos os pseudo-eventos atingem os objectivos desejados pelos seus promotores. Porém, a entrevista de Duarte Lima foi um “pseudo-evento” com sucesso. De facto, (disse-o o próprio), o momento foi escolhido por ele (ou pelo seu advogado), o meio (o canal público e a sua mais prestigiada jornalista) não podiam ser os mais apropriados para a sua amplificação a crer na audiência alcançada. O eco que lhe foi dado por outros meios (televisão, rádio, imprensa, blogosfera) foi grande.  Novos “pseudo-eventos” surgiram através de declarações da parte contrária e do seu advogado, por sua vez repetidas também amplamente noutros meios. Por fim, o registo intimista, não adversarial e quase afectivo da entrevistadora (bem longe do registo duro e quase agressivo de outras entrevistas a alegados “suspeitos” de outros “crimes”) mostraram que o conceito teorizado por Boorstin não perdeu actualidade.  

Ao afirmar que “o escritor não distingue o registo de entrevista ou de ficção, porque a vida é a mesma” Lobo Antunes recupera também, de certa maneira, o conceito de “pseudo-evento” criado por Boorstin.

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