Um silêncio ensurdecedor

Dois advogados – Magalhães e Silva e José Augusto Rocha – escrevem hoje, respectivamente no Correio da Manhã e no Público (link via Clube de Jornalistas), dois violentos artigos de opinião com enfoque no chamado “jornalismo judiciário”.  Ambos questionam os métodos usados na cobertura dos dois casos mais mediáticos deste Verão: no primeiro dos artigos, o autor faz uma crítica demolidora à cobertura jornalística do “envolvimento” de Duarte Lima no “caso Tomé Feteira”; no segundo, o autor expõe uma cerrada e contundente argumentação contra a constituição do jornalista do Público, José António Cerejo, como  “assistente” no inquérito judicial ao processo Freeport. Este último caso, para além de artigos do próprio jornalista a defender a sua posição, da direcção do Público a apoiar o seu jornalista e de uma coluna do provedor do jornal , desencadeou uma estimulante discussão entre autores e comentadores de alguns blogs, destacando-se este.  

Sem me deter na substância dos dois casos, sobre a qual muito haverá a dizer, há uma reflexão que se impõe desde logo: não é compreensível que as críticas e acusações contidas nestes dois artigos e a discussão que a questão do “jornalista-assistente” provocou na blogosfera deixem indiferente quase toda uma “classe” (com a  excepção acima apontada e a exortação feita aqui), cuja credibilidade perante os cidadãos é a fonte da sua legitimidade. De facto, é nestes momentos que  a inexistência de uma estrutura de auto-regulação representativa do grupo profissional dos jornalistas se faz sentir de forma gritante. É certo que o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas se tem pronunciado em algumas situações duvidosas e que em 2009 o seu presidente se manifestou no DN (link obtido via Jugular) contra os “jornalistas-assistentes”. Porém, a dificuldade manifestada pela quase generalidade dos profissionais em aceitar a autoridade desse órgão e o facto de a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (CCPJ) – órgão de co-regulação da profissão, com poderes acrescidos desde a última revisão do  Estatuto do Jornalista  – não se fazer ouvir, torna o silêncio  em torno da discussão destes temas absolutamente ensurdecedor.  É certo que a auto-crítica do jornalismo se traduz também no facto de os responsáveis editoriais viabilizarem a publicação de críticas ao seu trabalho nas suas próprias páginas, como já acontece nas colunas dos provedores (quando existem). Deve, aliás,  salientar-se o facto de os autores dos dois artigos citados serem externos aos jornais onde escreveram os dois “libelos acusatórios” ao jornalismo e, no caso do artigo do Público, ao  proprio jornal onde o escreveu.  Isso não substitui, porém,  a discussão aberta e sem constrangimentos dos problemas que afectam hoje o exercício do jornalismo, extraindo da discussão todas as consequências.

Qualquer que seja o ângulo pelo qual se abordem as questões do jornalismo, o caminho será sempre o da necessidade de uma auto-regulação representativa da “classe”, seja ela vertical ou horizontal, efectivamente atenta e interventiva. Só assim será possível ao jornalismo reconquistar a credibilidade e a confiança dos cidadãos.

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