Questões fundas sobre o jornalismo

O artigo de Fernanda Câncio, no DN de sexta-feira passada, e o de Pedro Adão e Silva, na última edição do Expresso, levantam questões fundas sobre o jornalismo.

O primeiro refere-se a publicações que se apresentam como órgãos oficiais de partidos políticos e empregam jornalistas com carteira profissional, citando como exemplos os casos do Avante, do PCP, do Acção Socialista, do PS, e do Esquerda, do BE. A autora invoca o regime de incompatibilidades previsto no Estatuto dos Jornalistas relativamente a algumas profissões, estranhando que não se encontre nele “algo de específico sobre órgãos de doutrinação”, e pergunta : “(..) se um assessor de imprensa, cuja função é a de veicular a informação que o seu contratador lhe fornece (…) não pode acumular, e bem, essa função com o estatuto de jornalista, alguém me explica como pode alguém que trabalha num órgão de informação com os mesmos objectivos ser considerado jornalista?”

No segundo artigo, a propósito da demissão de Manuel Maria Carrilho de embaixador da Unesco, Pedro Adão e Silva refere-se ao peso das fontes na informação publicada. Cito desse artigo:  “(…) fica sugerido que as redacções são cada vez mais incapazes de procurar notícias e que se limitam a amplificar o que alguém (de um assessor governamental a uma agência de comunicação, passando por uma editora de livros) quer que, naquele momento, ocupe a agenda (…)”.

Trata-se, em ambos os artigos, de temas centrais ao exercício do jornalismo. No primeiro, temos  a velha questão das incompatibilidades entre o jornalismo e outros campos da comunicação, como sejam, a comunicação institucional, as relações públicas e actividades afins, tais como, a comunicação de instituições públicas e privadas, sejam órgãos do Estado (Presidente da República, Governo, Tribunais, etc.), de partidos políticos, de instituições económicas, desportivas, etc., qualquer que seja a forma como essa comunicação se estrutura – em assessorias de imprensa, gabinetes ou agências de comunicação. Sobre esses campos comunicacionais, o Estatuto dos Jornalistas é claro quanto ao regime de incompatibilidades.

No caso concreto das publicações periódicas doutrinárias, nem o Estatuto dos Jornalistas nem a Lei de Imprensa clarificam o conceito, limitando-se esta a definir (art.º 13.º n.º 1) essas publicações como “aquelas que, pelo conteúdo ou perspectiva de abordagem, visem, predominantemente divulgar qualquer ideologia ou credo religioso”. 

A discussão  a fazer, nem que seja para evitar ambiguidades, nomeadamente quanto ao estatuto dos profissionais que trabalham na imprensa doutrinária, cabe, em primeiro lugar, aos próprios jornalistas, em sede de auto-regulação.

Quanto ao artigo de Pedro Adão e Silva, o caso nele referido não faz mais que confirmar uma realidade:  a capacidade e o profissionalismo das fontes institucionais, públicas e privadas, para influenciarem as notícias, que não encontram, do lado das redacções, a mesma capacidade (em tempo, meios ou vontade) para investigarem o que lhes chega “pronto a servir”.

Parecendo nada possuir em comum, as matérias focadas em ambos os artigos têm no seu âmago a mesma problemática: saber se o “contrato” com os cidadãos e a sociedade, que coloca um jornalista acima de quaisquer interesses e inclinações, sejam eles de natureza  pessoal ou política, respeitem a instituições públicas ou privadas, ainda se mantém. Porque é esse compromisso que legitima a confiança, a credibilidade e a autoridade que os cidadãos e a sociedade nele depositam.

About these ads
Esta entrada foi publicada em Auto-regulação, Comunicação e Política, Jornalismo. ligação permanente.