No aniversário da SIC, um testemunho pessoal

 Nem todos se lembrarão que há 18 anos, em Outubro de 1992, quando a SIC iniciou as suas emissões, Mário Soares era Presidente da República e encontrava-se no início do seu segundo mandato. A Presidência-Aberta firmara-se como uma das “marcas” da sua presidência, tendo o Presidente até aí realizado oito no primeiro mandato e uma no segundo. Em finais de Janeiro de 1993, já com a SIC no “terreno”, Soares realiza mais uma Presidência-Aberta, dessa vez na área Metropolitana de Lisboa. Iniciou-se aí uma era de competição desenfreada entre a  RTP e  a SIC (a TVI iniciaria as suas emissões em Fevereiro desse ano, não tendo acompanhado esta iniciativa do Presidente).

 Pela extrema mediatização dada por todos os média à Presidência-Aberta de Lisboa – Cavaco Silva era Primeiro-Ministro e a “coabitação” entre ambos era objecto de grande atenção mediática – essa Presidência-Aberta foi a oportunidade para a SIC  inaugurar uma nova linguagem televisiva de rompimento com a tradição de cobertura institucional da televisão pública. Essa Presidência Aberta foi, pode dizer-se, o lugar de afrontamento entre a SIC e a RTP, gerador de manifestações recíprocas do mimetismo que caracterizou os primeiros tempos de televisão privada em Portugal, com consequências ainda hoje visíveis.

A SIC adquiriu desde então uma identidade própria e os seus jornalistas “vestiam a camisola” da estação com um orgulho e um brio que não se notava até aí nos seus colegas da RTP. Em todos os locais dessa Presidência-Aberta os carros da SIC eram uma espécie de arautos da estação, rodeados de pessoas que acorriam a saudar a informalidade, a “cor” e o  “estilo” dos seus profissionais.

 Não é um lugar-comum afirmar que a SIC mudou a televisão em Portugal. De facto, os principais acontecimentos políticos nacionais e internacionais passaram a ser objecto de uma cobertura televisiva inédita até então. Sobretudo nos primeiros três meses da competição a mais pequena aldeia do interior passou a ser  notícia. A SIC “obrigou” a RTP a descer ao “país real”, inovando na forma de captação das imagens e dos sons, criando uma linguagem própria, longe do formalismo e cinzentismo técnico e estético que caracterizou a RTP até aos anos 80.

 Festejar a SIC em tempo de aniversário não significa que nos dias de hoje  tudo sejam rosas no panorama televisivo nacional. A pressão da concorrência, acentuada com o aparecimento da SIC e, depois, da TVI, e o crescimento, na altura, da imprensa popular e tablóide tiveram efeitos na informação e na programação, num sentido mais superficial e menos rigoroso.

Um olhar comparado entre os três canais generalistas de televisão permite hoje afirmar que a oferta televisiva em sinal aberto não é suficientemente diversificada, verificando-se em determinados períodos horários mimetismos indesejáveis nos géneros, formatos e funções da programação, com prejuízo do pluralismo e da diversidade.  

Mas, no final, o saldo da competição entre os três canais generalistas é positivo e sê-lo-á tanto mais quanto mais esses canais se constituírem em alternativa.

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