Os repórteres no corredor

A cobertura das reuniões das delegações do Governo e do PSD para “negociação” do orçamento de Estado tem reunido, há 3 dias, nos corredores da Assembleia da República, dezenas de repórteres que ali permanecem horas a fio.

Nas televisões, o cenário mais frequente são as portas das salas que se abrem e fecham e dos  assessores ou secretárias  “guardando” as entradas. As portas têm aliás, uma simbologia específica na cobertura da política. São locais onde geralmente o poder político e  aqueles que o visitam falam. São as chamadas “declarações à saída”. Há até cenários preparados para esses espaços entre portas. Pode ser um simples microfone , por exemplo, na Sala das Bicas do Palácio de Belém, ou as tapeçarias do Palácio de S. Bento. No Parlamento, apesar da beleza da sua arquitectura  interior e exterior, o cenário é mais pobre.  Os  deputados falam quase sempre nos corredores ou nos Paços Perdidos.

Nas negociações do orçamento o enquadramento preferido  dos repórteres é a porta  da sala onde decorrem as “negociações” e o  canto do corredor donde a mesma se avista.  Durante os directos, os repórteres colocam-se  estratégicamente entre a porta e o canto, para o caso de a porta se abrir e dela surgirem os “negociadores”.

Nos canais informativos, de meia em meia hora (quando no meio não há novidades) os repórteres dão nota do  tempo de espera e nós sentimos a sua  frustração por não saberem quanto tempo faltará até ao início ou o fim da reunião. Os sentimentos de insatisfação pela ausência de notícias e de impaciência pelo tempo de espera transformam-se eles próprios em notícia.

A frustração aumenta ainda mais quando, após tantas horas de espera, os “negociadores” resolvem sair por outra porta sem que os ansiosos repórteres lhes possam perscrutar os rostos e ver neles algum sinal sobre o andamento das “negociações”.

 Durante a longa espera, os repórteres vão traçando cenários, trocando ideias, construindo, talvez, manchetes imaginárias. A proximidade física mantida no corredor leva-os a partilhar visões e interpretações, a valorizar este ou outro pormenor:  o documento que a delegação X levava na mão ou o significado da palavra que a delegação Y deixou “cair” ganham um significado especial.

É o chamado pack journalism, teorizado pelo jornalista americano Thimoty Crouse no seu livro The boys on the bus. Refere Crouse que quando os jornalistas de vários media acompanham durante algum tempo determinados acontecimentos ou personalidades, visitando ou permanecendo nos mesmos locais e ouvindo as mesmas “estórias”, ficam dependentes das agendas  e dos staffs dos protagonistas.

 Ouvindo as reportagens das negociações compreende-se melhor o que é o pack journalism.

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