Da censura, do stress dos porcos, das marrãs e outros varrascos

É irritante verificar como a palavra censura, de tanto ser utilizada a propósito e, principalmente, a despropósito, quase deixou de ter sentido conotativo, um pouco na senda da história do pastor brincalhão que clamava auxílio por causa do lobo…para se rir dos outros. Um dia, o lobo veio, e foi uma maçada para o dito pastor. O mais peculiar é que este tipo de lenga lenga corriqueira vem, bastas vezes, de pessoas que temos por razoáveis.

Vem isto a propósito de um post em que se sustenta, a propósito disto (aqui, na versão em língua francesa), que a Comissão Europeia estaria a querer exercer censura sobre a imprensa.

O mais incréu terá ficado curioso, e ido consultar coisa tão tenebrosa. Ora, do que se trata? Tão simplesmente, de uma recensão de peças jornalísticas (o mais delas, convenhamos, especialmente idiotas e fantasiosas) sobre alegadas políticas, decisões ou projectos da União Europeia, desmentidas com a exposição daquilo que a Comissão considera serem os factos.

A censura, pelo que se percebe do post acima referido, existirá porque os media não podem ser criticados, ou, pura e simplesmente, não podem ser desmentidos, sob pena de tal comportamento ser criticável ou, já agora (o termo teve a sua moda) ser uma pressão ilegítima? Valha-nos Santo Engrácio, como dizia o outro…

Já agora, teria sido bem mais interessante e menos preguiçoso, em vez de derrapar para o cliché fácil e deslocado, ler alguns dos desmentidos ou factos apresentados pela Comissão. É que a sua comicidade não ficará muito atrás das tolices publicadas.

Veja-se, por exemplo, que o The Times (!) noticiou que os criadores de porcos do Reino Unido tinham 90 dias para colocar um brinquedo em cada pocilga, arriscando, em caso de incumprimento, pena de prisão até 90 dias. A notícia parece tão estúpida que, quando muito, poderia imputar-se a uma noite demasiado bebida.

Mas, qual é, então, a “verdade”? A verdade é que a Comissão adoptou em 2001 uma directiva sobre o bem-estar dos suínos, entrada em vigor em 2003, nos termos da qual os criadores dos ditos bichos estão obrigados a colocar nas pocilgas, em permanência, matérias que permitam aos nossos amigos foçangar: palha, feno, madeira, serrim, composto de cogumelos, turfa ou uma mistura destes ingredientes. E qual a razão? Os estudos científicos que “demonstram” que os porcos, ficando aborrecidos (sob stress, imagina-se) têm tendência a auto-mutilar-se ou a mutilar os seus congéneres.

Porco sem stress e nada aborrecido

Aqui está uma situação em que quase é mais tonta a emenda do que o soneto…

P.S. Nesta saga pelo bem-estar suíno, e para aliviar tristezas, veja-se, também, a proposta de Directiva apresentada pela Comissão ao Conselho (COM(2006) final, de 8 de Novembro de 2006). Ali se aprendem coisas realmente fundamentais: duvido que muita gente soubesse que o porco fêmea – só este conceito é logo um poema! – só ascende a porca depois da primeira parição. Antes disso, é marrã. Assim sendo, a desgraçada do porco fêmea pode ir desta para melhor, e não necessariamente para bifanas, sem passar de marrã!

E a proposta de directiva continua, com uma carga sexual inusitada, e até de alguma lubricidade: pensava eu que porco…era porco. Nada disso! Pode ser varrasco (o porco macho, adulto, destinado à reprodução) ou, desgraçado dele, apenas porco de criação (porco entre a idade de dez semanas e o abate ou a cobrição). Assim sendo, o porco de criação ou salta para o prato na forma de febras e outras tripalhadas, ou salta, digamos assim, sobre porco fêmea, sendo que esta, após tal grandioso momento, e ficando de esperanças, terá garantida a mudança de estatuto, chegando a porca…

Inusitado, e a merecer reflexão, é que o macho atinja o estatuto máximo com a cobrição, enquanto a porco fêmea, em juízo discriminatório que todos repudiaremos, só lá chega quando chegarem os leitões.

Neste quase delírio, note-se a tremenda ambiguidade legislativa na definição do varrasco. O bicho fica com tal cognome desde que destinado à reprodução. Mas, e se por estas e por outras, não conseguir concretizar, ou, conseguindo, não conseguir fertilizar? Pois, então, desgradue-se a porco de criação. Infelizmente, nesse caso, já só lhe resta o abate.

Ou terei feito mal as contas?

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