A propósito de apensos sobre pensos

Não supus que, ao escrever este post banal em que discordava do que entendia ser uma algo estranha apologia do que designei como excesso de igualdade, viria a ficar envolvido numa grande tempestade sobre pensos, que agora até mete panos do pó, bâton e coisas quejandas. Fernanda Câncio responde, assim, que o que sempre esteve em causa não foram coisas profundas, mas, afinal, quase só um mero apelo estético – e que as reacções ao seu texto, incluindo a minha, são absurdas.

Será aquilo que acredita que escreveu, mas…o que dizer quando, a propósito da tal estética, se lança, recorrendo à artilharia da mais pesada, que “[s]im, é possível termos chegado ao século XXI, uns bons séculos depois daquilo a que os europeus deram o nome de “descobrimentos” e até umas boas décadas após o proclamado fim do colonialismo, sem descobrir esta evidência: a cor-de-pele, enquanto referência imediatamente identificável, não existe”?

Carregadito, não, a propósito dos pensos cor-de-pele que realmente o não são ou podem não ser?

De todo o modo, e consultando a fonte que serviu de mote ao seu texto, o que vem a perceber-se? O aproveitamento bem descarado que uma marca faz da tal discriminação pós-colonial, dando-se palavra quase exclusiva à porta-voz da referida marca, que justifica com este grande desígnio igualitário o belo negócio que descobriu (mas não assume): penso para negro mesmo negro, para negro um pouco menos negro, penso para preto café com leite (ou, de forma muito mais elegante, mixed-race). Aviso já que os pensos, para quem os quiser comprar, são carotes…Comparem-se preços aqui (para 40) e aqui (para 20).

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E custa a crer que, com infinito topete, a tal porta-voz invoque até, nesta operação salvífica, idiotas que alegadamente conhece, os quais, incomodados por colarem à pele adesivo tão diferentemente colorido do seu “tom”, preferem não o usar, imagino eu que deixando a ferida espichar à vontade.

O artigo do Guardian referido por Fernanda Câncio rasga-nos, aliás, novos horizontes luminosos. Três tons mais escuros para pessoas negras? É pouco, demasiado pouco! Uma luminária apresentada como beauty editor de uma revista logo adverte que, só na comunidade afro-caribenha, há muito mais do que três tons de negro…

Isto promete.

Mas, por que será que, em vez de loas por mais uma barreira derrubada no longo caminho para a igualdade, só ouço o barulho de caixas registadoras?

Já agora, e em relação ao texto original escrito por Fernanda Câncio, permito-me, muito humildemente, sugerir cuidado à autora. Quando ali se diz que os tais pensos foram feitos “para pele de pessoas de origem indiana e africana“, será que detecto uma involuntária concepção assente em geografia racial? É que a origem não determina a cor da pele, e uma pessoa de origem indiana ou africana pode ser, veja-se lá, mais branca do que o mais branco. E não poderá, para tornarmos a coisa mais interessante, uma pessoa de “origem indiana” ter uma pele “típica” de pessoa de “origem africana” ou, imagine-se!, vice-versa?

Mas isto sou eu, que, pelo que pensa Fernanda Câncio, penso lento

Adenda. Cara Fernanda Câncio, Paul Valéry, L’idée fixe, I suppose? Com mais precisão, “Ce qu’il y a  de plus profond dans l’homme c’est la peau”. De acordo, sem hesitação. Por isso, também, o mote de que partiu me tenha parecido menor.

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