Os despedimentos nos jornais e os “tabus” do jornalismo

Despedimentos no Expresso, foto DN

As recentes notícias sobre os despedimentos no grupo Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, na sequência de outras relativas à Cofina e à Controlinveste (em 2009), mostram alguns dos “tabus” que caracterizam o jornalismo:

  1. Um primeiro “tabu” reside no facto de os despedimentos serem, com raras excepções,  publicados em primeira mão por outros  meios de comunicação social e não pelos abrangidos pelos despedimentos.
  2. Um segundo “tabu” traduz-se no facto de essas notícias não terem, por regra, fontes identificadas, limitando-se a invocar “fontes da redacção”, o jornal “sabe…”, “teve acesso a…” ou a citar os comunicados do Sindicato dos Jornalistas sobre o assunto.
  3. Um terceiro “tabu” reside no facto de as reacções dos “despedidos(que raramente se conhecem) serem apenas (ou em primeiro lugar) noticiadas por outros meios. O mais que se publica sobre isso são frases do género “ambiente é de tensão…”. Também aqui as notícias citam sobretudo os comunicados do Sindicato dos Jornalistas.
  4. Um quarto “tabu” traduz-se na não divulgação pública dos critérios que orientam a selecção das pessoas a despedir.
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A título de exemplo, é possível identificar estes “tabus” em três jornais pertencentes a grandes grupos abrangidos por despedimentos em 2009 e 2010: Correio da Manhã, Diário de Notícias e Expresso.

– O Expresso não noticiou os despedimentos na Impresa, grupo a que pertence. Noticiou, porém, em 2009 e com desenvolvimento, os despedimentos na Cofina e na Controlinveste. Sobre este último grupo, o Expresso noticiou também a greve dos trabalhadores.

– O Correio da Manhã não noticiou os despedimentos no seu grupo, a Cofina, mas noticiou os da Controlinveste (em 2009) e agora os da Impresa, e fez tentativas (vãs) para ouvir as reacções dos envolvidos nos outros grupos.

– O Diário de Notícias noticiou os despedimentos no grupo a que pertence, a Controlinveste, no grupo Cofina e, agora, na Impresa, citando, neste último caso “fontes da redacção” sem contudo as identificar. Foi, assim, a excepção, isto é, o único dos três jornais a noticiar os despedimentos no seu próprio grupo.

Quanto à divulgação dos critérios de selecção dos elementos a despedir, nenhum dos três jornais os divulgou, quer no que respeita ao grupo a que pertence quer aos outros dois. Contudo, no caso dos despedimentos na Impresa, foi o Jornal de Negócios a divulgar, em exclusivo (sob anonimato da fonte) os critérios usados por este grupo para proceder aos despedimentos. Dado o carácter excepcional dessa divulgação, aqui ficam: “historial de conflito com as chefias; remunerações elevadas e relação do valor salarial com a produtividade; dificuldade de adaptação aos níveis de exigência do Expresso.”

Questões para reflexão:

1. Que significado têm os “tabus” aqui identificados?

2. Que outras situações podem ser encontradas quando se considera o binómio meios de comunicação social do sector público e do sector privado?

Temas para um próximo post.

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3 respostas a Os despedimentos nos jornais e os “tabus” do jornalismo

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