Mais uma proposta pateta

Em França, eis que alguém lançou a ideia da “Jornada dos homens de saia”. Nada mal, grande ideia. E do que se trata, então? A saia, pelos vistos, pode tornar-se num símbolo do novo feminismo, substituindo as calças que desempenharam no passado esse papel. Pois, agora, a pitonisa de tais teses e manifestos espera que também os homens comecem a usar saias, para sentirem “essa vulnerabilidade associada às pernas descobertas”, e, pensa-se, começarem finalmente a perceber as mulheres.

A verdade é que este desejo acompanha outros desejos, estes masculinos, em relação à dita saia. É ver, por exemplo aqui, o site dos “Homens de saia”, que lutam pelo direito de andar de pernas ao léu e que, da forma mais conscienciosa e política possível, denunciam uma publicidade sexista e anti-saia do Ministério da Cultura francês. Para maluca, maluco e meio.

No Reino Unido, a trend está também a marcar pontos, veja-se aqui, entre muitos outros, para um número (impressivo) de fotos. Ou então, para uma versão bem mais sofisticada, aqui.

É como sempre, nestas pretensas batalhas “proto-feministas”, pouco mais do que ruído: não fazem sentido desde o início, diminuem a mulher, ridicularizam um combate justo e necessário pela igualdade.

Alguém me há-de explicar o que é que a exibição das minhas pernas peludas me fragiliza e faz compreender os efeitos nocivos do sexismo… Por fenómeno de simpatia? Pelo risco – nulo, aliás – de ouvir assobios lúbricos ou graçolas obscenas de trolhas femininos, para levar o cliché ou o fantasma ao uma nova dimensão?

Homem a começar a perceber os meandros do sexismo

Mas imaginemos que esses despropósitos me aconteciam, enquanto ajeitava a saia e cerrava as coxas, constrangido. Decerto, instantaneamente, pensaria: caramba, percebo agora, na pele, o que tem passado mais de metade da Humanidade! Agora, mas só agora, percebi… E, baixinho, não deixaria de murmurar: obrigado, grande luminária que me fizeste descobrir…

Também quase sempre (como se vê pelas amostras junto), este tipo de propostas apatetadas – que, infeliz e curiosamente, provêm demasiadas vezes da Academia – já são revelhas ao surgirem. Não falta – no caso, à rebours, como reivindicação masculina de direitos – quem já lute pelo reconhecimento pleno do direito macho a usar saia. E não falta, logo a seguir, a indústria, a querer relançar aquilo que Gaultier tentara nos anos 90, sem grande êxito. O mais interessante, e também algo revelador, é que nos sites que consultei, e de que apenas dou uma amostra, muitas das fotos masculinas garbosamente de saia cortem a cara, para impedir a identificação do utilizador. Pudor masculino, nos dias de hoje? Uma luta ainda semi-clandestina?

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