Do “bom” e do “mau” ateísmo (que, quando é mau, não “conta”)

Interessante, muito, a discussão entre Palmira Silva e Paulo Pinto no Jugular, a respeito da religião ou da falta dela, da sua bondade, dispensabilidade, irrelevância ou carácter nocivo. Veja-se, por último, aqui, aqui, aqui e aqui.

Como já tive ocasião de dizer aqui, a relativa surpresa, ou se calhar não (como dizia o outro), advém de o discurso e argumentário “ateu”, “anti-teísta” ou “anti-religioso” estarem fortemente impregnados por uma abordagem, pelo menos, tendencialmente “religiosa”, ou, como também já aqui foi aflorado, “metafísica”.

Esse facto não vale, naturalmente, como crítica per se do discurso que se proclama ateu, e fraca seria a divergência se apenas radicasse nessa “proximidade”.

Registo porém o que Palmira Silva diz, a dado passo, no tal diálogo que acima referi:

vá lá, não incluiste o nazismo na lista de regimes totalitários ignóbeis que colas ao ateísmo – queres assacar ao ateísmo os crimes de regimes reconhecidamente criminosos. quando o totalitarismo nada tem a ver com ateísmo.”

Em tese, Palmira Silva tem, evidentemente, razão. Em tese, o que dissera noutro momento a esse respeito sobre este tópico é sensato, como se pode confirmar aqui. Contudo, na prática, a razão esvai-se rapidamente – nem que seja pela aplicação, ao caso, da fórmula bem prosaica “ou comem todos, ou haja moralidade”.

Com efeito, a lógica discursiva que assenta na História para a demonstração dos males da religião ou da forma como esta é ou foi interpretada não pode, depois (pode, mas não deve, e sujeita-se a réplica), recusar qualquer exemplo histórico que, pelo menos em parte, assentou a sua legitimidade no discurso anti-religioso. Veja-se, sobre este assunto (e sobre o papel da auto-representação histórica como elemento potenciador do conflito), Leah Brilmayer, Secession and Self-Determination: a Territorial Interpretation, Yale Journal of International Law, vol. 16, 1991, 177 ss.

Quer dizer, se por uma espécie de determinismo histórico se imputam factos do passado a uma discussão contemporânea sobre religião, é natural que (com as limitações e vícios lógicos que tal exercício comporta) que o mesmo seja feito relativamente a fenómenos em que o anti-religioso era matricial ou, quando menos, servia de base à justificação ideológica, ou de outra natureza, para certas opções tidas como reprováveis. A isto chamo eu o princípio da reciprocidade argumentativa.

Por isso, falando da Igreja Católica, é invocada, entre outras, a Inquisição, e o mal que em nome dela foi cometido. Mas, por isso também, é evidentemente legítimo falar do nazismo e do mal que, em nome de uma determinada concepção anti-religiosa, foi cometido.

exemplo histórico que DEVE ser aproveitado

Dir-se-á: não, etc. e tal, porque o nazismo é um caso à parte, e representa uma forma perversa de ateísmo; e, porque sendo uma forma de totalitarismo político, o termo de comparação só pode ser feito com o totalitarismo religioso, nunca com o ateísmo. É essa (pelo menos em parte, claro) a linha de pensamento de Palmira Silva, lá onde diz: “[a]ssim, todos os totalitarismos, religiosos ou políticos, dividem a humanidade entre nós e eles, «justos» e malvados, consoante a obediência ou não a estas verdades «absolutas», invocam calamidades sortidas, na Terra ou no Céu, se as suas verdades não forem acatadas e consideram a sua a forma suprema de justiça”.

Ora, isto vem a dar no seguinte: 1) o ateísmo “verdadeiro” nunca pode ser totalitário; 2) o ateísmo “verdadeiro” não divide a Humanidade entre nós e eles; 3) esses vícios (vá lá, esses pecados!) são dos “outros”, que, por definição, representam uma forma de mal, ou, pelo menos, de desvalor ético.

Bem confortável, diria eu, esta posição, segundo uma equação win-win, em que nunca se perde!

exemplo histórico que NÃO PODE ser invocado

 

Se um totalitarismo político assentar no ateísmo para definir o “outro” (religioso) como inimigo, o relevante é ser um totalitarismo, não é propugnar o ateísmo; se um totalitarismo religioso propugnar o “outro” (religioso ou ateu) como inimigo a abater, o elemento dominante é ser…um totalitarismo religioso.

O ateísmo “mau” – utilizemos o termo! – não é ateísmo que possa ser invocado; o religioso mau, esse, pode ser sempre utilizado. Bem bom, assim também quero jogar!

Só isto permite, e aí se encontra o salto lógico de Palmira Silva, que a utilização da História possa ser feita em relação àquilo em que a religião foi, directa ou indirectamente, invocada; mas que o mesmo não seja válido quando o ateísmo foi, directa ou indirectamente, aproveitado, com mais ou menos convicção e fundamento.

No catálogo das malvadezas, em conclusão, a que se chega?

Muito simples (e, quase sempre, tudo o que é demasiado simples ou dicotómico deve merecer desconfiança): de um lado, os totalitarismos, religiosos, políticos, e alegadamente ateus ou que assentam numa falsa interpretação, e mau aproveitamento, do que é o pensamento ateísta. Do outro, o ateísmo como força motora, devidamente interpretado e aplicado. Simplificando ainda mais? De um lado, o Mal. Do outro, o Bem. Lá regressamos nós, então, a um raciocínio puramente moral. Mas é, sobretudo, um raciocínio moral confortável e sempre auto-justificado.

O que não deixa de ser curioso. E, repito, muito confortável.

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