A senhora dá licença?

Muito já foi dito sobre a Wikileaks, os seus méritos e os seus deméritos. Os campos do “a favor” e do “contra” esgrimiram, às vezes para lá do razoável, quase tudo o que havia para dizer ou argumentar sobre o assunto.

Neste blogue, por outro lado, e para não ficarmos atrás, poderão ser lidos estes posts de Estrela Serrano, aqui, aqui e aqui. Em post anterior, defendi que, objectivamente, a relação entre a Wikileaks e os jornais a quem cedeu o exclusivo de análise e divulgação da informação (doravante, os Big Five) era um excelente negócio para ambas as partes. A Wikileaks conquistava respeitabilidade e garantia “marca” jornalística que a legitimava como actor principal; os segundos,embora remetidos para um papel instrumental, garantiam um assinalável e muito duradouro boost de vendas, e, além disso, passavam a ser vistos como a elite do jornalismo (aqueles em quem a Wikileaks tinha confiado).

Deixe-se de lado, por enquanto, se o que está a ser divulgado podia ou devia ser divulgado. Ao assunto voltarei mais tarde.

Neste ponto, porém, é já possível concluir que o jornalismo sai descredibilizado e perdedor, uma vez que todos os jornalistas, urbi et orbi (com excepção dos tais Big Five) estão agora confinados ao papel de repetidor daquilo que foi visto, seleccionado e analisado por outros, fingindo, sem grande êxito, que participam em todo o processo.

Ainda por cima, e casos já houve, sem sequer terem o direito de aceder ao documento ou documentos apreciados e seleccionados pelos Big Five, para confirmarem a informação divulgada. Ou “comem” (e todos comem) o que lhes é dado, ou calam, ficando de fora.

Não sei porquê, tudo isto me lembra as sobras dos restaurantes que agora servem para acalmar a pobreza e a fome (dizem).

A demonstração mais crua (crua, não, cruel) do que acabo de dizer pude lê-la no “Público” de há dois dias (Sábado, dia 18 de Dezembro de 2010). Em chamada de primeira página, lê-se que “Estivemos na sala do El País onde se tratam em segredo os documentos da Wikileaks”. Na capa do caderno P2, toda a negro, o buraco em branco de uma fechadura, onde está escrito “Espreitámos para a sala onde o El País trabalhou os telegramas da Wikileaks”; E finalmente, nas págs. 8 e 9 do mesmo caderno, o texto do artigo, tendo como título “Na sala do Projecto C” (de cable, telegrama). Na edição online, muito menos interessante do ponto de vista gráfico e simbólico, o artigo pode ser visto aqui.

Estamos a falar, é bom notá-lo, de um jornal português que costuma ser tido como “de referência” (admitamos que ainda existe a classificação).

A tese logo exposta é notável pela autojustificação, petulância pobretanas e, sobretudo, pelo que não diz: “[o]s documentos da Wikileaks só são compreensíveis e úteis depois de trabalhados pelos jornalistas dos cinco órgãos de comunicação que a eles tiveram acesso”.

Repare-se: nenhum cidadão teria possibilidade de compreender o que lia, nem de chegar a resultado útil, se tivesse tido acesso directo aos documentos leakados. Depois, a mediação que permite aceder ao plano do compreensível e do útil (!) nem é reivindicada para o jornalismo, mas para os jornalistas dos Big Five. Se não fossem eles…ninguém percebia. Ergo, o jornalismo (tomando a pequeníssima parte pelo todo) é ainda fundamental.

Pois, não creio.

O papel do restante jornalismo, mesmo o mais qualificado, é, isso sim, o de ter o privilégio de ir “cheirar” a sala de um dos jornais onde tudo se passa – pobres, mas agradecidos.

Antes que se inventem analogias, esclareço já que não é comparável este caso com outros “exclusivos” do passado, como, por exemplo, o Watergate. Ali, eram escolhidos jornalistas em quem se confiava do ponto de vista da investigação que poderiam levar a cabo. Ali, o segredo do “garganta funda” era crucial, aqui, a fonte fala todos os dias. E outras diferenças há, que aqui não vale a pena referir.

Também por isso, li este artigo do “Público” com tristeza, e nada impressionado com a alegria pueril de quem pôde tocar na fímbria do Santo dos Santos.

E lembrei-me das criadas de servir (como antes se dizia) que, de avental engomado, touca e ar humilde, batiam à porta da sala, onde estavam os “senhores”, e perguntavam, com deferência:

– A senhora dá licença?

Adenda: a pluralidade das opiniões pode ser surpreendente. Para uma visão diametralmente oposta da que acima exponho, veja-se a posição de Alfredo Maia, aqui.

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