O debate

O debate Cavaco – Alegre foi, a todos os títulos, um debate interessante e revelador de algumas das características  de cada um dos candidatos. Passo a exemplificar:

- Cavaco Silva entrou “a matar”. Surpreendeu pela agressividade quando não necessitava disso, uma vez que nada tinha a perder em manter-se calmo e descontraído.  Sendo o incumbente ganharia em manter a “pose” presidencial que assumiu nos outros debates. Mal deixou Judite de Sousa formular perguntas, cheio de pressa em defender-se das “cinquenta vezes” que Alegre o acusou de não defender o “estado social”. Esteve sempre crispado, rosto franzido, revelando alguma insegurança e usando a táctica “a melhor defesa é o ataque” face aos dois temas mais difíceis (mas não inesperados) colocados por Alegre: as “escutas a Belém” – aflorado pela primeira vez nestes debates – e o BPN/SLN.  No primeiro, fez uma “fuga em frente”, mudando rapidamente de assunto, o que Alegre não explorou. No segundo, remeteu, como já fizera antes, para a declaração que entregou no Tribunal Constitucional e mandou Alegre consultar o site da Presidência. Os seus melhores momentos foram aqueles em que falou de  política externa.   

- Alegre surgiu descontraído mas sem a displicência que o prejudicou  em anteriores debates. Pareceu surpreendido com o ataque inicial e repentino de Cavaco sobre as “cinquentas vezes” em que ele alega que o acusou sobre o “estado social” (“enganou os portugueses”, disse Cavaco), recuperando porém rapidamente. Esteve no seu melhor relativamente a anteriores debates, evidenciando um discurso bem articulado sobre princípios de cultura democrática e de tolerância quando explicou a diferença entre insultar e divergir ou criticar, e entre insinuar e apresentar factos (no caso BPN). Pareceu  mais preocupado em afirmar a sua concepção essencialmente política do papel do Presidente do que em explorar os casos das “escutas” e do BPN. Surpreendeu pela positiva ao instituir como prioridade a Justiça, através de uma iniciativa a que chamou “estados gerais da Justiça”. 

Cavaco e Alegre concordaram apenas em dois pontos embora com argumentos diferentes: na promulgação do orçamento e na impossibilidade de antecipar se, uma vez eleitos, dissolverão ou não a Assembleia da República. Ambos “rivalizaram” na não hostilização do Governo, revelando assim que os votos dos apoiantes do partido Socialista estão em disputa por ambos. 

Talvez Alegre tenha convencido  “povo de esquerda” eventualmente indeciso (ao qual apelou directamente), sensível aos “valores” do diálogo, da tolerância e de uma certa ideia de nação que Alegre verbaliza com eloquência.

Quanto a Cavaco Silva, não tendo sido este o seu melhor debate e embora surpreendendo na atitude – menos “polida” do que certamente o seu eleitorado apreciará - não tem alternativa à direita pelo que não perdeu certamente um único voto.

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5 respostas a O debate

  1. azeredolopes@gmail.com diz:

    Caro “Açoriano”,
    Obrigado, e bom Ano para si.

  2. Muito obrigada, e bom ano também para si.

  3. lidia sousa diz:

    Concordo inteiramente com o seu comentario assertivo e isento sobre aquilo a que chamou um debate. Ora para mim isto não foi um debate, pois não teve moderadora. A auto intitulada melhor entrevistadora Portuguesa foi absolutamente deferente face a Cavaco- Como teve a sorte de ser o 1º a falar, copiou o estilo do Lopes da PCP e falou durante largos minutos sem ser interrompido, num estilo ROTTWEILLER. Em contra partida sempre que o Alegre tentou debater ela interrompia-o fazendo novas perguntas sem o deixar c0mpletar sequer uma ideia. Tambem a subserviencia dela ao não exigir respostas ás suas perguntas, foi lamentavel. Esta espécie de debate só teve um mérito para mim a para o meu circulo de amigos. Cavaco deixou cair a face do homem calmo, bem educado pela mulher, para assumir uma atitude de trauliteiro que na realidade é o que ele é mesmo

  4. chefe de turma diz:

    É bom ver, uma mulher com tantos anos de coerência. Manuel Alegre,ficou atordoado com a entrada de Cavaco. O Caso das Escutas e o BPN, têm que ser esclarecidos, aqui Manuel Alegre foi muito Soft,pois devia-o ter encostado à parede.A campanha vai começar, estes dois temas são fulcrais,pelo impacto que tiveram no pais.Cavaco Silva, no estatuto dos Açores,parou Portugal… nas escutas manda-nos ir ver à internet… Lamento o comportamento do PCP e BLOCO,tão céleres a solicitar inquéritos contra o Ps e Governo,para obter ganhos eleitorais, e nada tenham feito neste caso das escutas, para procurar a verdade.O Assessor Fernando Lima, devia ter ido ao parlamento. Termino com os votos de um bom ano para si e restante familia.

  5. açoriano diz:

    Nota prévia: O meu comentário era para ser na “posta” do prof. Azeredo Lopes, mas não consegui.
    Concordo com tudo o que escreveu e também no artigo no DN, mas esse veja as atitudes dos membros do júri a uma concorrente, principalmente esse paladino da liberdade http://www.youtube.com/watch?v=Qu4fDpY72uQ&feature=player_embedded que vergonha e falta de respeito pela rapariga.
    Esse programa Gente da Minha Terra é mau, ponto. Vi 2 ou 3 episódios completos e apanhei bocados de outros tantos e o autor do mesmo no seu site (não sei se ainda existe) não era assim tão defensor da “liberdade de expressão” com ameaças de processos em tribunal e insultos a quem lhe criticava e atacava por causa do Gente da Minha Terra.
    Cumprimentos e um bom 2011.

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