Foie gras e vinho tinto

Nas transumâncias semanais Porto-Lisboa, a rádio é uma companheira leal. É frequente que me meta a caminho na segunda à noite. No meio da desgraça (chegada a desoras, o tédio do macadame, etc.) tive, desde há meses, a sorte de descobrir uma pérola rara – “Crónicas da Idade Mídia”, na Antena 1 (algures depois do noticiário da 23h).

O protagonista é Ruben de Carvalho, na sua qualidade de melómano, acompanhado por Iolanda Ferreira – e, para registo, não conheço nem um nem outra. Ruben de Carvalho, veja-se lá, até disse algumas coisas infelizes (to say the least) sobre a ERC aqui há uns tempos.

Por causa do que a seguir escrevo, está perdoadíssimo.

Ruben de Carvalho, à solta, fala de música e músicas, normalmente a partir de um tema por si escolhido. De um tema, não. De coisas magníficas, que não lembrariam ao menino Jesus e muito menos ao comum dos mortais, como no último programa, onde versou sobre o Erie Canal. Erie Canal? Pois.

O que aquilo tem de extraordinário são várias coisas, a começar pela possibilidade de podermos passar o tempo, gulosamente, a ouvir falar de, ou a ouvir, música alentejana; ou francesa; ou folk, ou o diabo a quatro; ou do tal Erie Canal e da música, aliás fantástica, que a seu propósito foi gerada.

Mas, há mais.

Ruben de Carvalho sabe do que fala, mas sabe do que fala num plano inacreditável de competência e erudição serenas. Depois, comunica bem,  nunca é petulante. E consegue prender no fluir da conversa com Iolanda Ferreira e na selecção única das músicas que nos “oferece”.

Em termos gastronómicos, na rádio tenho muitas vezes direito a sandes (e viva o velho!); às vezes, lá vem um prego no prato, com o devido ovo a cavalo. Mas isto de que vos falo é foie gras, de mãos dadas com um grande vinho tinto (ou Sauternes, se forem dados àquilo).

Quem quiser, pode ouvir e tornar a ouvir aqui.

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