Shut! Não se pode saber…

O Director de Informação da SIC, Alcides Vieira, foi notícia. Porque foi ontem ao Parlamento, e porque criticou a ERC e, mais especificamente, os seus relatórios (com destaque para o relatório sobre o pluralismo político-partidário no serviço público de televisão). Até aqui, nada de novo. Ça va de soi, ainda é muito chique (mas é menos do que antes) criticar a ERC.

Desta feita, porém, e depois de outros episódios com outros actores, es tealto responsável de um dos dois operadores privados acrescentou algo que, porventura terá passado despercebido. É que Alcides Vieira vai mais longe do que não concordar com o modelo de avaliação acima referido. Alcides Vieira considera, pura e simplesmente, que a monitorização , com critérios transparentes e públicos, da televisão, é, por si, ilegítima e, veja-se lá, condiciona as redacções – logo, a liberdade de imprensa.

Por exemplo, o facto de a ERC dar a conhecer que o SPT, de forma sistemática, subrepresenta o maior partido da oposição. Ou ser possível compreender, ao fim de três anos de agreçação de dados (para além do mero achismo), que isto se deve a uma concepção do jornalismo pé-de-microfone (ou, como me disse alguém, com assinalável franqueza: “Olhe, Prof., lá tenho que ir dar a volta por todos esses gajos”)?

 Para o Director de Informação da SIC, é ilegítimo, é perigoso, muito perigoso, que se saiba e que se publicitem tais elementos – e só o facto de se procurar saber representa, por si, um desvalor. Saber-se que a informação dos três canais generalistas, de uma perspectiva temática, parece Dupont e Dupond, ou, para quem quiser mais sofisticação, “blanc bonnet” e “bonnet blanc”? Alcides Vieira diz que é ilegítimo, porque condiciona – imagine-se! Saber-se que a cultura, a sociedade civil, as minorias, ficam, no essencial, no quarto dos fundos (quando ficam)? É ilegítimo, condiciona os jornalistas, pressiona-os. E até os empurra, no caso do respeito de obrigações em matéria de pluralismo político, para a uniformidade – como se, actualmente, a informação dos três canais não fosse, essencialmente, similar!

Ou seja: para Alcides Vieira, é um condicionamento da liberdade jornalística que os cidadãos possam saber isto, e formar a sua opinião sobre o assunto. O acesso à informação, e a dados que possam qualificar o juízo cidadão que façamos sobre o jornalismo? Não, esse é um direito que só cidadãos qualificados (como os jornalistas) têm o direito de reivindicar.

Assim falou o Director de Informação da SIC, ouçamos respeitosamente.

Dados sobre o que nós somos, o que pensamos dos políticos, estatísticas sobre tudo e alguma coisa, sobre a saúde, sobre as Universidades, a Justiça, o que que queremos ser? Claro que sim, só dessa forma se promove o conhecimento, a cidadania esclarecida, a própria democracia.

Mas…dados sobre os média? Dados fiáveis sobre como e em que termos se faz a informação em Portugal? Era o que faltava!

Peço desculpa, ainda não tinha percebido: Alcides Vieira está acima de nós, de todos nós. Tem uma carteira de jornalista, e é um infinito privilégio que nos faz (ele, e os seus confrades): permite-nos saber – desde que não se trate de saber sobre os média.

No fundo, é simples: Alcides Vieira é Deus, e Deus não se discute nem se escrutina: seguem-se os Seus comandos.

Nada mal.

Alcides Vieira teve pelo menos um grande e indiscutível mérito, e por isso merece elogio: foi claro como água.

Shut! Não é legítimo que se saiba...

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