O procurador partiu a loiça…

entrevista do procurador-geral da República, Pinto Monteiro, este Domingo, ao DN, não pode  senão causar um enorme sobressalto. As suas palavras são  claras e o seu alcance e significado não requerem análises de sentido. O procurador fala da justiça, da política, dos média e de “casos” que fizeram correr muita tinta, alguns dos quais ainda fazem. Nas suas palavras lemos um mundo de promiscuidade, enganos, manipulações que, em alguns casos, se conheciam em círculos mais restritos, noutros se adivinhavam e noutros  apenas se suspeitavam. Vale a pena reparar, por exemplo, no que sobre os média diz o Procurador:

“(…) A maior parte dos políticos relevantes tiveram processos criados pela comunicação social, pelo diz-que-disse. Acabou por não se provar nada porque não se prova o que não existe (…) o caso Freeport é o vigésimo (…)”

[Esses casos] ou foram criados na comunicação e na opinião pública ou por quem tem interesse em criá-los! (…) O Freeport é um processo-crime. Está lá escrito com trânsito em julgado como nasceu o Freeport, está lá – um senhor inspector que foi julgado, foi condenado, saíu da Polícia Judiciária (…)”

«A Comunicação social foi altamente favorável ao procurador-geral da República (…) até ao dia em que (…) o procurador (…) fez um comunicado que diz assim…chamei aqui a directora do DCIAP e perguntei: “O que há contra o primeiro-ministro?” Ela disse: “Nada”. Fiz um comunicado em que disse: “Não há nada, até este momento, contra o primeiro-ministro.” A partir daí a imprensa inverteu e desatou a atacar o procurador. (…)»

“A política resolve-se em eleições e na Assembleia da República. Mas querem resolver através de processos judiciais! Já que falou no primeiro-ministro veja a quantidade de processos. Nunca mais acabam! Quando acabar um vem outro, tem de se manter acesa a chama! (…) Porque é que os assistentes que havia não requerem coisas? Porque não há lá nada! (…). A comunicação social era Freeport dia sim, dia sim (…) Quem diz Freeport diz muitos outros políticos actuais. (…)”

“O segredo de justiça em Portugal é uma fraude (…) De todo o lado há violações do segredo de justiça (…) Há um assistente que tem acesso ao processo A ou B, a seguir põe no jornal a que pertence o que vem lá, o que é proibido. Até hoje não vi que acontecesse nada. Participa-se, é arquivado mas divulga (…). A maior parte das notícias que violam o segredo de justiça são escolhidas e apontadas (…)”

As palavras do procurador levantam questões que não podem ficar sem resposta, sem o que os cidadãos serão forçados a concluir que a cobertura jornalística dos casos de justiça em que têm estado “envolvidas” figuras políticas, em particular o “caso ” Freeport, são um jogo  de interesses entre política, justiça e jornalismo. Há que esclarecer, por exemplo:

– Se o procurador está equivocado e os relatos jornalísticos sobre o Freeport e outros casos semelhantes correspondem a factos e se esses relatos  resultam de “investigação própria” (como diziam o Sol e o Jornal Nacional de Sexta da TVI), ou se “foram criados na comunicação social, ou por quem tem interesse em criá-los”, como afirma o procurador, e neste caso por quem;

– E era bom que se soubesse quem quer “resolver a política através de processos judiciais” e “manter a chama” na comunicação social;

– E também se devia saber quem “escolhe” e “aponta”, ou permite que lhe “apontem”,  as notícias que resultam de violações do segredo de justiça.

É que, numa altura em que a palavra “mentira” se tornou  arma de arremesso permanente contra o actual primeiro-ministro, era bom para a saúde mental  dos cidadãos, bombardeados meses a fio pelas notícias sobre o Freeport, saberem se o procurador tem ou não razão quanto ao retrato que traça dos média. E, já agora,  saber quem afinal mentiu e porquê.

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7 respostas a O procurador partiu a loiça…

  1. BEM HAJA Sº PROCURADOR

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