Comentadores “à rasca”

A canção dos Deolinda, “Parva que sou”, e a manifestação da “geração à rasca” têm sido tema de análises mais ou menos sofisticadas por parte de comentadores, entre os quais alguns académicos. Em geral, as análises centram-se no facto de os seus protagonistas serem  jovens, licenciados ou com outros  graus académicos e  não terem emprego.

Na edição do Público deste Domingo, Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica questionam, o primeiro, a validade do conceito de mão-de-obra “qualificada” como fundamento de progresso, a segunda a utilidade de certos cursos de licenciatura. Filomena Mónica afirma  no seu artigo: “[o]s promotores da manifestação [da geração à rasca] são todos licenciados em Relações Internacionais. Isto habilita-os a quê? Alguém se deu ao trabalho de olhar o conteúdo destes cursos? Os docentes sabem do que falam? Duvido.”

Também Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal na TVI, retomou a crítica aos cursos de Relações Internacionais. Desta vez, os cursos de Comunicação Social e afins não vieram à baila mas são também alvo de alguns  sectores académicos e intelectuais.

Os ilustres comentadores que assim se exprimem são de áreas distintas: Vasco Pulido Valente  é historiador; Filomena Mónica, socióloga e Marcelo Rebelo de Sousa, jurista. Não os une, pois, o ramo do conhecimento em que se situam, nem as áreas em que se formaram se distinguem quer no grau de “cientificidade”  quer em termos de saídas profissionais,  da área de Relações Internacionais. Por exemplo, os licenciados em  História deparam-se com imensas dificuldades para obterem emprego e daí talvez a escassa procura desse curso. No caso da Sociologia, sabe-se quão difícil foi a sua afirmação e aceitação como disciplina científica. Quanto ao Direito, sem dúvida das três áreas citadas aquela que maiores “fornadas”  de licenciados produz anualmente, debate-se, a crer no que diz o Bastonário da Ordem dos Advogados,  com  problemas ao nível da formação e do emprego.

Quanto à  licenciatura em Relações Internacionais, questionada por Filomena Mónica e Marcelo Rebelo de Sousa,  podem consultar-se  aqui ou aqui, dois exemplos de conteúdos dessa licenciatura.

Não é, aliás, necessário grande esforço intelectual para constatar a importância e a necessidade de uma boa preparação dos jovens de hoje, dirigentes de amanhã,  em temas internacionais, numa época em que a internacionalização e a globalização atingem todos os sectores da vida dos cidadãos europeus, em particular, dos portugueses. Uma formação  em Relações Internacionais não é, pois,  descartável sendo mesmo necessária.

A “saga” contra a licenciatura em Relações Internacionais e  contra outras formações académicas, como as Ciências da Comunicação  e o Jornalismo, corresponde, ao fim e ao cabo, a um desejo elitista e antiquado de protecção de determinados” territórios”  que se receia venham a  ser “invadidos” por outros mais dinâmicos e inovadores.

Acresce que quando um jovem escolhe ingressar num  determinado curso  é, em geral, movido em primeiro lugar  por um impulso vocacional e não apenas pela garantia de que à saída o espera um bom lugar (o que não significa que as saídas profissionais não devam ser ponderadas na escolha de um curso).

E quanto aos cursos de Comunicação Social, Jornalismo e afins, certas opiniões que se lêem e ouvem mais parecem vindas de antes do 25 de Abril de 74, altura em que esses cursos não convinham aos senhores de então.

Creio, pois, que se há um problema com o ensino superior não é  o do surgimento de novas áreas do saber mas sim o facto de muitos cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento, incluindo os  chamados cursos “clássicos”, estarem em muitos casos a substituir os antigos “turbo-professores” por figuras mediáticas capazes de atrair clientela para esses cursos.

Essa realidade trouxe para as universidades, a par de um conjunto de saberes feitos de experiência, sem dúvida de grande interesse,  um ensino facilitista muito pouco académico e nada científico, em muitos casos semeador de ilusões que depressa se transformam em  frustrações…

Voltando ao princípio, parece que não temos só uma geração de jovens “à rasca”, temos também  comentadores “à rasca”…

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9 respostas a Comentadores “à rasca”

  1. Aldo diz:

    Caro João,
    O seu filho poderá ser padeiro, necessidade básica – fazer pão.

    Os melhores cumprimentos, abraço.

  2. Dona Zélia em derradeira glosa diz:

    Porventura se detecta uma presunção:
    1.º Crer que pode “inculcar” (estilo clister) espírito crítico nos jovens.
    2.º Achar que a “única forma de resolver o “problema” é fazer o seguinte: 1º Criticar violentamente os actuais cursos de Relações Internacionais para os neutralizar”.

    Talvez os tempos estejam propícios a certa paranóia megalómana de perseguição, ou talvez os Kadafhi deste mundo tenham sido incautos ao permitir uma proliferação excessiva de licenciados em relações internacionais.

  3. Dona Zélia que vende sebentas no ISCTE diz:

    “eles deram espírito crítico aos jovens, o que é de facto muito perigoso para o poder estabelecido”
    “Se um jovem de Relações Internacionais conseguir desmontar a propaganda do estado moderno neo-liberal”

    News flash: espírito crítico e “desmontar” seja o que for não equivale a criar robots debitadores de citações coladas a cuspo do Noam Chomsky, todos tão originais, genuínos e livre-pensantes que mal se apercebem de que caem na previsível carneirada da cassete esquerdalha. Pois. A dádiva das ciências sociais para a sociedade, basicamente.

  4. Manuel Filipe Canaveira diz:

    Eu fui nos últimos dez anos docente de História das Relações Internacionais num curso de Ciência Política e Relações Internacionais. Sei por isso muito bem que Filomena Mónica está cheia de razão. De facto, ninguém avaliou muito bem o que se ensinava nesses cursos e, agora, descobrimos que eles deram espírito crítico aos jovens, o que é de facto muito perigoso para o poder estabelecido.
    Se um jovem de Relações Internacionais conseguir desmontar a propaganda do estado moderno neo-liberal, apenas resta o uso da violência pura e dura, da qual ele tem o monopólio enquanto Estado.
    O uso da astúcia, que em política sempre precede o da violência (último recurso do Estado), fica, pois, gravemente afectado.
    A única forma de resolver o “problema” é fazer o seguinte: 1º Criticar violentamente os actuais cursos de Relações Internacionais para os neutralizar; 2º Fazer o mesmo que se fez ao curso de Sociologia, retirando-lhe o espírito crítico que ele teve nos anos sessenta (de inspiração francesa) e conformando-o com os interesses do neoliberalismo (sociólogia de inspiração norte-americana).
    Hoje a Sociologia tornou-se num saber altamente especializado no uso de sofisticados “instrumentos” burocráticos de controlo e alienação das populações. Os CEO das grandes empresas devem estar muito gratos a essa ciência humana (na minha opinião ainda mais do que à economia, que também é uma ciência humana).
    Pouca gente percebe a perigosidade que as chamadas Ciências Sociais e Humanas podem ter no contexto da Modernidade. A História, felizmente, na tradição de Lucien Febvre, tem “combatido” com grande denodo os perigos da utilização política da “Memória Histórica”. Esperemos que os sociólogos lhes sigam o exemplo e desistam de “construir” modelos organizacionais e sistemas institucionais que visam anular o indivíduo enquanto tal e o obrigam a diluir-se numa multidão que vive numa cultura de alienação (feliz por não ter qualquer ideologia).

  5. Pôr em causa a utilidade de um curso como Ciências da Comunicação/Jornalismo é regressar à década de 70 onde, dizia-se, não tinham “densidade científica” para serem dignos de uma licenciatura
    O século XXI vai ser o século da informação, onde o Jornalismo terá um papel decisivo e preponderante. Negar isso, é negar uma evidência.

  6. Tiago diz:

    Não só 3 anos são insuficientes para qualquer curso de áreas especificas que seja, como falta discutir a quantidade de formados no curso.
    Sim, é importante haver especialistas em relações internacionais, mas são necessários assim tantos que se abram 400 a 500 vagas por ano só para cursos de relações internacionais?
    em 20 anos, formam-se 8000 pessoas em relações internacionais, para quê? não chegam 3 ou 4 bons especialistas em cada faculdade interessada, mais uns 50 para ajudar o governo nas suas decisões, e umas centenas para as grande empresas internacionais?
    Por outro lado, faltam médicos nos nossos hospitais e não abrem mais vagas.

    Todos os cursos têm a sua utilidade e todos precisamos que existam, mas a quantidade de formados que lançam para o mercado de trabalho também tem de ser considerada tendo em vista a procura…

  7. João diz:

    Mas de novo… para que serve um curso de relações internacionais?

    Tradicionalmente, quem queria estudar essas áreas dedicar-se-ia primeiro ao Direito, à História, à Ciência Política ou a outra disciplina de fundo que fornecesse uma sólida formação de base para interpretar o mundo. Só depois estreitaria a sua abordagem. Era uma abordagem morosa, envolvia um comprometimento mais duradouro – e trabalhoso – do que passar por meros 3 anos bolonheses. Sofria-se a grande travessia no deserto para se chegar finalmente à área pretendida. E, pelo caminho, adquiriam-se conhecimentos, competências e, sim, instrumentos de sobrevivência no mercado de trabalho. Alguns cursos são uma amálgama de lugares comuns e introduções superficiais e coladas a cuspo a várias disciplinas do saber que, no limite, fornecem umas noções vagas um pouco sobre tudo e especialização em nada. Para quê fazer um curso que apenas (e muito eventualmente) abre uma porta só quando se pode seguir algo que abra múltiplas?

    Tenho cá as minhas impressões sobre aquilo que se tornaram as ciências sociais, em termos de seriedade, relevância e até de cientificidade. Mas isso não interessa na prática… A maioria dos que vão para a universidade não pretende dedicar-se à investigação. Pretende entrar no mercado de trabalho. Dê lá por onde der. E o que me interessa é que se tiver um filho lhe direi: se um curso necessitar de mais do que 5 ou 6 palavras para explicar para que serve, esquece, isso significa que não responde a uma necessidade básica. E significa que, em caso de escassez de dinheiro no mercado, é das primeiras competências profissionais que se vão considerar supérfluas.

  8. V. Alves diz:

    Muito bem.

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