A crise e o primado da palavra

Nietzsche já tinha dito em 1873, na obra “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral”,  que a verdade é uma designação, tomada universalmente como válida, que expressa  o que uma pessoa percebe e sente como realidade. Na sua  perspectiva, a verdade encontra-se submetida às convenções da linguagem.

A actual crise política e os desenvolvimentos que sofreu esta noite com a entrevista do Primeiro Ministro, e antes dela com as reuniões do estado maior do PSD e do Governo e as declarações que se seguiram a cada um destes acontecimentos, mostram que Nietzsche tinha razão e que a verdade e a mentira são sobretudo percepções da realidade. Porém,  essas percepções são hoje moldadas pela mediação televisiva da linguagem e da palavra.

Não fosse a situação económica e financeira ser tão grave e dir-se-ia que a crise desta última semana nasceu da percepção individual de cada parte sobre a crise e sobre a verdade sobre a crise, iniciando-se com o discurso inaugural do Presidente da República no dia da sua posse, prosseguindo com a declaração do PSD contra qualquer hipótese de apoio deste Partido às medidas do Governo e culminando com a entrevista do Primeiro Ministro, esta noite.

Acontece que não estamos já no século XIX. A crise política anunciada ocorre no palco mediático da televisão – talvez por isso Passos Coelho tenha falado em “teatro”, coisa que muito escandalizou o Primeiro Ministro  – e depende em grande parte da capacidade que cada um dos actores principais tiver para dominar a palavra e a linguagem, de modo a influenciar as nossas percepções sobre quem fala verdade –  a tal verdade convencionada e tomada universalmente como válida, de que falava Nietzsche.

Essa luta requer actores “de primeira” e como dizia esta manhã, na SIC e na RTPN, o comentador e polítólogo Adelino Maltez, temos em Portugal actores políticos treinados no domínio da palavra, que convém não menosprezar.

O PS está a jogar forte nessa luta pelo domínio da palavra: ontem, Santos Silva na TVI24 e Francisco Assis no Prós e Contras; hoje,  José Sócrates na SIC e na SIC Notícias. O PSD “poupa” o seu actor principal, Passos Coelho (não sei se é boa ideia), e é o seu “porta-voz”, omnipresente, a assumir o papel do líder; Miguel Macedo, ontem, no Prós e Contras, a “segurar” bem a posição do líder.

Decididamente, esta crise política ganha-se ou perde-se no palco televisivo. Os actores perfilam-se, o público vai seguindo os seus episódios no sofá,  no twitter e no facebook  até lhe ser dada a palavra …. quem sabe, nas urnas.


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5 respostas a A crise e o primado da palavra

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  4. maria lopes diz:

    Isto é informação,isto é esclarecimento.
    Obrigada,Maria Estrela.

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