Beber do fino

No tempo de Soares-Presidente os chamados “homens do Presidente” eram mais discretos que os  “homens” do actual Presidente. Salvo raras excepções, os mandatários, conselheiros de Estado e assessores não andavam a dar “bocas” a quem lhes punha um microfone ou uma câmara de televisão à frente.  

Soares falava com a sua própria voz  e as “fugas” de informação causavam-lhe autênticas fúrias. Quando suspeitava de onde partiam  costumava dizer que os “suspeitos” queriam mostrar  aos jornalistas que “bebiam do fino”. Soares-Presidente tinha um porta-voz que se encarregava do que não era dito pelo próprio Presidente.

O actual Presidente não tem um porta-voz formal e talvez por isso os seus “próximos” sentem-se à vontade para surgirem como “intérpretes públicos” do seu pensamento político, mostrando que “bebem do fino”. 

Já no seu primeiro mandato se liam em jornais e blogs críticas ao Governo assinadas por asessores do Presidente e o caso das “escutas a Belém” constituíu a prova provada de que havia em Belém quem bebesse do fino e…acabasse embriagado.

Desde a campanha presidencial, sobretudo depois do discurso de posse do Presidente, há mais gente a querer  mostrar que “bebe do fino”.  Porém, alguns dos porta-vozes parecem beber mais “carrascão” do que “fino”…

Bem pode o Presidente afirmar que ninguém fala por si. Mas ninguém acredita que  os seus “homens” mais próximos, figuras de relevo na sociedade portuguesa, viessem a público dizer o que dizem sem o seu aval ou, pelo menos, sem o seu conhecimento. É que em política  ainda vale a velha máxima de que “o que parece é”.

Vejam-se três exemplos recentes:

Na entrevista ao canal de televisão Económico TV,  parcialmente reroduzida aqui , a que o DN chama “inédita”, o mandatário nacional de Cavaco Silva, o cirurgião João Lobo Antunes, sugere a estratégia: neste momento “provavelmente não haverá outra alternativa” à realização de eleições legislativas antecipadas, (já que) “a capacidade de retomar o diálogo numa base diferente – ‘trust’ – é muito difícil de restabelecer” e José Sócrates enveredou numa governação de “orgulhosamente sós”

Outro dos  mandatários, Campos e Cunha, ex-ministro das Finanças de José Sócrates, traduz o que provavelmente se pensa em Belém  sobre o Primeiro Ministro, recorrendo  a metáforas futebolísticas:  “O primeiro-ministro é mestre em táctica. Havia um treinador que dizia que o Futre era capaz de fintar três jogadores dentro de uma cabine telefónica, mas depois não sabia onde estava a porta. Este primeiro-ministro é a mesma coisa: é mestre em táctica, mas depois não sabe onde está a porta, porque não tem estratégia.” (…) Sobre um novo governo a seguir a eleições, diz o mandatário do Presidente: “Naturalmente, José Sócrates não poderá fazer parte desse governo. Ele fez parte do problema e não consegue fazer parte da solução”.

António Capucho, conselheiro de Estado de escolha presidencial, em entrevista ao Diário Económico, não destoa: o primeiro-ministro “tem falta de credibilidade”, o Governo “está em campanha eleitoral” e “tem de levar uma rasteira – um rasteira legal, claro! – e sair”.

Temos, pois,  os “homens do Presidente a “beber do fino” mas a falar “grosso”: fintas, rasteiras…

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4 respostas a Beber do fino

  1. Pingback: Os telefonemas de Marcelo | VAI E VEM

  2. aires diz:

    Estes mandatários, “ex-qualquer coisa” no campo oposto, ao prestarem-se a dizer o que o misero venerando não pode, não quer, não ousa, fazer, dizer

    dão uma boa mostra do que é sua vivencia intelectual moral e politica…

    meras vozes do dono…

    então esse cunha ultrapassa marcas da decencia…

    abraço

  3. A Nortada diz:

    João Lobo Antunes,devia remeter-se a um periodo dilatado de nojo…depois de ter assistido a um discurso de vitoria do seu presidente… que mais parecia de um eleito na America Latina… Eu compreendo que o lugar de conselheiro dá dinheiro ao fim do mês,mas que sai caro não deixa de ser verdade…. Não suba o sapateiro além do chinelo…

  4. EGR diz:

    Nestes tempos conturbados é frustrante que o nosso país não tenha,de facto, um PR
    com dimensão política .
    Todos os episódios para que nos chama a atenção, sem esquecer os seus dois mais recentes discursos-os da tomada de posse e o da homenagem aos combatentes- constituem provas inequivocas dessa ausencia.

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