Em Portugal não há jornais de esquerda?

Como é possível que Portugal seja praticamente o único país europeu a não dispor de jornais de esquerda?…interroga-se Nobre Correia, no DN, este sábado. Bom conhecedor dos média internacionais, Nobre Correia identifica como jornais de esquerda,  no país vizinho, notando embora a existência de “sensibilidades diferentes” dentro de cada jornal,  o  El País, o Público, o La Voz de la Calle (anunciado para Abril)  e o El Periódico – “popular de sensibilidade progressista”. Pergunta então “como é que a esquerda portuguesa, em todas as suas matizes, é incapaz de se dotar de um diário ou mesmo de um semanário que observe, relate e interprete a vida no mundo segundo um prisma reformador e progressista“.

São sem dúvida boas questões, cuja resposta não é linear. Desde logo porque em Portugal é difícil traçar o perfil ideológico (digamos assim) de um jornal (rádio ou televisão), uma vez que todos se dizem independentes e equidistantes dos poderes etc., etc. . Na discussão desta matéria confunde-se, em geral, posicionamento editorial com rigor na informação – este último um princípio que os jornalistas são obrigados a respeitar por força do seu estatuto profissional e do seu codigo deontológico, qualquer que seja o posicionamento ideológico do seu jornal. 

O posicionamento editorial prende-se  com a expressão de uma determinada visão do país e do mundo segundo uma perspectiva mais ou menos liberal, conservadora ou  progressista”. Quer se situe à esquerda ou à direita um jornal não pode deixar de cobrir os acontecimentos da actualidade com rigor e no respeito pelas regras da actividade jornalística. A não ser que se trate de um jornal de partido ou de facção mas aí não estamos a falar de jornalismo.

O editorial  é o lugar por excelência onde a “voz” do jornal se enuncia, prática que em Portugal é seguida apenas por alguns  jornais, sendo que noutros os editoriais traduzem apenas a posição do membro da direcção que os assina, o que no passado, por exemplo durante a última guerra do Golfo, deu origem a situações caricatas com o director a escrever num sentido e outros membros da sua direcção noutro sentido. Actualmente, quer os editoriais sejam ou não assinados os jornais portugueses não assumem claramente opções  ideológicas à esquerda ou à direita

O posicionamento ideológico dos jornais  pode também ser observado  através do  “perfil” dos seus colunistas.  Porém, também por  aí não se chega muito longe porque a tendência dos directores  é para convidarem membros dos partidos políticos (que aproveitam as suas colunas para veicularem  posições ideológicas e partidárias) e  intelectuais, alguns dos quais embora sendo membros de partidos assumem posições críticas face aos mesmos, sem contudo deixarem de se manter fiéis ao quadrante ideológico onde se situam. Há também os académicos “puros”, geralmente com colaborações mais esporádicas.

Na ausência de  posicionamento editorial claro, quanto a uma orientação ideológicamente mais à direita ou mais à esquerda da imprensa portuguesa, é nas opções jornalísticas que se encontram as “marcas” ideológicas (e por vezes político-partidárias) porém de forma não assumida e mesmo camuflada.

A  orientação ideológica encontra-se, por exemplo, no relevo que é ou não dado a determinados temas, na  escolha das manchetes, na titulação das peças, no seu enquadramento ou na selecção das fontes, etc., isto é, em matérias nas quais é suposto um jornal se  pautar pelo rigor e pela equidade.

A explicação fundamental para as escolhas editoriais reside contudo  no facto de, em geral, os jornalistas possuírem uma cultura adversarial em relação ao poder político (que não se verifica, por exemplo, em relação ao poder económico, do qual dependem).

Mas a razão fundamental para que os jornais não se posicionem ideologicamente reside na  convicção de que um jornal que se mostre “próximo” do governo está votado ao fracasso. Contudo, não é um dado adquirido que os leitores, ouvintes ou telespectadores deixassem de optar por jornais que, com transparência, se assumissem mais à direita ou à esquerda desde que no plano noticioso cumprissem as regras do jornalismo.

Diria mesmo que os leitores tendem a comprar os jornais com os quais se identificam mais e preferem sempre a transparência  e a clareza nas opções editoriais a uma falsa neutralidade mascarada de manipulação mais ou menos encapotada.

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7 respostas a Em Portugal não há jornais de esquerda?

  1. Maurício Moreira diz:

    Aqui no Brasil, ao contrário do que foi dito abaixo, temos as organizações mediáticas cujo “deus” é a audiência!

    O jornal “O Globo” emprega entre seus colunistas e jornalistas a ideologia de esquerda, sim! A questão da globo [enquanto organização] é que ela acostumou-se a ser LÍDER DE AUDIÊNCIA em todos os seus segmentos e no desespero pelo ‘status quo’ tenta agradar a todos.

    Prova disso são as novelas, onde pode-se notar o total comprometimento em agradar a agenda de esquerda pela promoção de “novos” e quaisquer “valores”, DESDE QUE, se oponham aos valores conservadores.

    O que menos há é a vontade de informar e/ou tornar o País mais justo.

    A questão central é o poder!

    O desejo de se controlar pela via da regulamentação econômica é a prova de que a esquerda brasileira é ditatorial e mesquinha tanto quanto o é a “direita” brasileira. Péra aí! Que direita? Nós só temos direita em vozes espalhadas em meios mediáticos!, NÃO nos partidos!

    O que a esquerda quer é se tornar hegemônica, não só no congresso e poderes políticos, mas nas mentes daquilo que se constituir ou vier a ser chamado ao que hoje ainda denominamos ser a “família tradicional”.
    Também por isso a promoção do ateísmo, posto ser a religião (que ainda não se vendeu a ela) uma grande barreira.

    Eu sonho com o dia em que havendo gente verdadeiramente de BOA VONTADE, poderemos superar a luta via espectro político. O caráter não precisa esperar pelo poder para manifestar suas intenções. Quem deseja o bem do próximo, não depreda o patrimônio do seu próximo! [como nota-se no Brasil]

  2. Carla Leczano diz:

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  3. Edmilson de castro diz:

    Aqui no Brasil estamos em guerra contro monopólio da mídia. Monopólio controlado pela Rede Globo que vocês, certamente, conhecem. Sou eleitor do PT e defendo a regulação econômica da mídia. Mídia que em meu país, defendeu a tortura e a ditadura e que, agora, afaga os frentistas e corruptos.
    Gostaria de ter, em meu país, um jornal mais esquerdista. Mas nem mesmo o Lula defende a criação de um jornal.
    Pergunto então: é o caso de ter um jornal ou já dispomos de ferramentas tecnológicas suficientes para produzir um outro modo de relacionamento com as passoas politicamente progressistas?
    Dito de outro modo: pensar em jornal não é a mesma coisa que pensar em partido? Esturras do século XIX?

  4. Joaquim do Mira diz:

    Um dos poucos jornais de esquerda em Portugal deve ser o AVANTE ( avante.pt) .Não é um jornal generalista, é um jornal partidário, mas tal como no tempo do fascismo conseguiu aguentar-se agora no neoliberalismo em que os jornais são a voz do dono,a voz do sistema, esta é uma voz diferente.

  5. Susana diz:

    É fácil ver quem se coloca mais à esquerda ou direita. Em todos os 4 canais generalista basta ver os comentadores políticos. Se a memoria não me falha não há nenhum de esquerda. São mesmo independentes!

  6. Amílcar Tavares diz:

    Minha norma: dispenso a leitura de personagens engajadas com os partidos pois a toxicidade das suas palavras ultapassam os meus limites.

  7. A Nortada diz:

    Como quem mete lá o dinheiro é quem manda…os jornais refletem os interesses do patrão em dado momento.Se dizer bem do Governo não vende,há que dizer mal…O DN e Jornal de Noticias,são o exemplo acabado do que escrevi antes. O J de Noticias,está a trair o seu ideario de sempre e os seus leitores.A cambalhota,não tem precedentes.A escolha dos autores dos artigos de opinião não é equilibrada,por não respeitar minimamente as opçoes dos leitores nem do eleitorado.

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