Paladinos do consenso

Não deixa de ser irónico que alguns dos signatários de manifestos e petições  para acordos entre os partidos acusem os políticos de estarem “crispados”, de não se entenderem, etc., passando por cima de entrevistas e declarações que eles próprios fizeram e fazem  a jornais e televisões, não poucas vezes  bem mais incendiárias e destrutivas do que  as acusações entre os partidos.

Algumas dessas personalidades, porque tidas como apartidárias e credenciadas, e por isso disfrutando de grande apoio e credibilidade junto dos jornalistas, têm alimentado o clima de crispação entre políticos e partidos, como facilmente se constata analisando a repercussão que as suas posições adquirem nos meios de comunicação social.

É impossível não pensar nisso quando se assiste, como aconteceu hoje, à transformação de  algumas dessas personalidades em paladinos do consenso entre os partidos e os seus líderes, deslocando-se em peregrinação ao Palácio de Belém, com as televisões atrás, para apresentação ao Presidente da República, em representação de um grupo de “notáveis”, do manifesto “Um compromisso nacional” onde  defendem  “uma convergência entre partidos e instituições, face à «credibilidade externa» em tempo de crise”. 

Ora, a tão desejada “convergência” presumivelmente inclui, além do PSD e do CDS, o PS de José Sócrates. O pormenor não é supérfluo, uma vez que  os portadores  do manifesto (ver foto acima) têm dito em público que o Primeiro Ministro “não pode ser parte da solução” (para citar o mínimo do que têm dito).  Sem ir mais longe, bastará recuperar uma ou duas entrevistas de um dos signatários do manifesto – António Barreto – com  títulos como :“Fomos enganados durante 6 anos”  ou  Crise política é “golpe” de Sócrates para se vitimizar”.

Naturalmente, os signatários do manifesto têm o direito, e em alguns casos até  o dever (quando, bem entendido, possuem currículo para isso) de apontar os erros da acção do governo ou os problemas do funcionamento do sistema político. Aliás, alguns deles fazem ou fizeram isso. É o caso de António Barreto. Porém, algumas das suas últimas intervenções, talvez contagiadas pela crispação que o Manifesto aponta ao clima político, também visível no discurso de  certos empresários, situam-se mais no plano da luta política, por vezes com ataques ad hominen, do que no campo onde António Barreto é, indiscutivelmente, um dos melhores, a saber, a análise sociológica da realidade portuguesa.

Daí que o  Manifesto hoje apresentado ao Presidente da República suscite fundadas reservas quanto à sua credibilidade e coerência.

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8 respostas a Paladinos do consenso

  1. Pingback: Os novos “entertainers” | VAI E VEM

  2. Manuel Santos Feliciano diz:

    Decididamente, acho que está na hora de dizer umas quantas coisas. Vivemos numa situação insustentável. Há que sair dela já! A solução não passa pelo Manifesto: “Um compromisso Nacional” mas, tão só, pelo Manifesto Anti-Sistema, no blogue: movimentoantisistema.blogspot.com, que resumidamente se traduz no seguinte: 1- pressionar, através de uma grande manifestação nacional, em duas frentes: Lisboa e Porto, a classe política a adoptar o tecto salarial na Função Pública e nas empresas do Estado, sendo esse tecto o vencimento do Presidente da República. 2- Proibir a acumulação de tarefas e funções na mesma função pública e empresas do sector empresarial do estado -isto tem ligação com as empresas municipais, fundações (que sendo privadas recebem do Estado), institutos, etc. 3- Impor também um tecto salarial para as reformas (as reformas douradas -60% do vencimento do PR). 4- Incompatibilidade entre vida activa e reforma (a grande maioria de todos estes experts do manifesto são reformados que acumulam e vivem “à vara larga”, nunca sentiram qualquer dificuldade na vida). 5- Aumento do IRS, não para a classe média, mas para os gestores, excessivamente bem pagos do Privado, que, também eles, acumulam, e que deveriam ser taxados acima dos 50, eventualmente 60% (incluimos aqui os jogadores de futebol, altamente privilegiados em tudo, que ganham milhões e a quem ninguém até hoje teve a coragem de pedir alguns sacrifícios, como se fossem deuses e não comuns mortais. Com estas 5 sugestões, acredito que daremos a volta ao texto. Caso contrário tudo ficará na mesma, como propõpem as iluminárias do dito manifesto, por sinal, algumas delas eminências pardas, como por exemplo Braga da Cruz que só à sua conta faz parte de 4 Fundações: Juventude, Serralves, Luso-Americana para o Desenvolvimento e ainda Fundação Oriente; para não falar de outros reformados que também dão a “sua mãozinha” às fundações Calouste Gulbenkian (Emílio Rui Vilar) e Champalimaud (Leonor Beleza). E por hoje fico por aqui. Manuel Feliciano.

  3. a simplifacação do pensamento

    sempre foi a maior ameaça à demo cracia

    Demo gogia

    não que eu tenha nada contra a radicalização dos discursos e dos pontinhos à Carlos Castro

    microfones no soalho viram canhões

    infantilidade vira soberba

    e etc vira tec…no cracia

    a falta de pensamento crítico dá nisto

    eu concordo
    eu discordo
    eu….eu…..eu…
    e há 10 milhões de eu’s e nenhum nós…

    e quando há nós….e deixa de haver eu também é mau

    Se fosse um Paulo Pedrosa Biologicamente falando
    era bom
    mas um organismo de colmeia
    não tem individualidade

    emergir na realidade´

    ou continuar no fundo a lançar atoardas

    vivemos momento a momento escaramuça a escaramuça

  4. António Barreto e Lobo Xavier mais não fazem que representar os patrões, os dois merceeiros mais poderosos do país, respectivamente:
    -PINGO DOCE
    -CONTINENTE
    Quando não são os respectivos patrões a fazer análise e combate político na TV, mandam estes doutos assalariados pugnar pela causa que pensamos estar relacionada com problemas do mercado de mercearias… Porventura também já a cuidarem da funcionalidade das senhas que o PSD pretende distribuir pelos malandros dos pobres, em vez de numerário, caso contrário (dizem eles) jogam tudo no euromilhões…

  5. josé diz:

    Muito boa análise.

  6. Maria da Guia P. M. Manteigas diz:

    Guida, no dia 5 de Junho é que vai ver o que os portugueses querem! Serão milhões a querer José Sócrates como PM, o melhor Primeiro Ministro que tivemos desde o 25 de Abril de 1974!

  7. Guida diz:

    Por outras palavras, mesmo que o povo não queira, temos que incluir o Sócrates no acordo político.
    Hás-de me dizer qual é o teu parentesco ao Sócrates para o defenderes tantas vezes.
    Mais um boy do Sócrates.

  8. aires diz:

    ja não há pachorra para estes “dependentes-in”…
    vide FNobre….
    veremos que se segue…
    abraço

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