Os bombos da festa

 (…) Os quatro Presidentes do Portugal democrático uniram-se no 37º aniversário do 25 de abril para dizer ao povo que chegou a hora de todos assumirem as suas próprias responsabilidades. Não pouparam os políticos (…) (Expresso, 25 Abril, 2011).

Das intervenções dos presidentes os comentadores e analistas retiraram que as críticas principais foram para os políticos e os partidos. Ora, dos quatro presidentes, três foram dirigentes do respectivo partido antes de serem presidentes da República. O quarto, Ramalho Eanes, primeiro presidente  eleito do pós 25 de Abril, foi impulsionador de um partido  – o PRD.  Todos sabem, pois, do que falam quando criticam os partidos.

Vejamos, contudo: os partidos políticos não são “corpos” estranhos à sociedade portuguesa.  São constituídos por portugueses iguais aos outros. Existem para apresentar ideias e soluções para o país e pretendem alcançar o poder, isto é, ser governo, disputando eleições. É essa a sua vocação. Os vencidos, tornam-se oposição e nessa qualidade são essenciais ao funcionamento da democracia.

Os partidos que nos têm governado e os presidentes que têm presidido à República são obviamente responsáveis pelos avanços e recuos que o país tem vivido.  Com eles também nós -  que os elegemos para fazerem aquilo que nos prometeram - somos responsáveis.

Todos fizeram promessas, umas  cumpridas outras não. Umas vezes, não as cumpriram porque o que prometiam podendo ser  realizável no momento deixou  depois de o ser,  outras, por incompetência ou incúria, outras ainda porque quem prometeu saíu antes do tempo para que foi eleito.

Todos colocaram pessoas da sua confiança em lugares do aparelho de Estado ou de empresas públicas, porque na cultura política portuguesa a fidelidade (firmada na cor partidária ou na amizade) se sobrepõe à competência e ao saber.

Todos recuaram ou vacilaram perante interesses corporativos -  dos sindicatos,  do patronato, ou de grupos de interesses, com poder de influência “na rua” ou sob a forma de lobby - quando se tratou de realizar as chamadas “reformas profundas” no Estado e na sociedade.

Todos apoiaram as suas “clientelas”, fossem elas autarcas ou dirigentes partidários locais – as famosas “distritais” que em tempos eleitorais  granjeiam  votos -  e daí a distribuição generosa por todo o país de rotundas, piscinas, scuts e outros sinais de “desenvolvimento”.

Todos procuraram influenciar os média e criaram os seus spin doctors, uns fizeram-no mais às claras, outros menos, uns de modo  profissional outros de modo amador.

Todos são responsáveis pelas leis que temos e pelas que não temos e  devíamos ter.

Todos alguma vez mentiram ou disseram inverdades ou meias-verdades, porque em política a verdade é a verdade do momento e o que é hoje verdade pode não o ser amanhã.

E no entanto:

Podemos não querer ver, mas o país que temos hoje não é o país de há 37 anos - na saúde, na habitação, na educação, na investigação e produção científica, na formação profissional, na qualidade de vida das populações do interior, nas vias de  comunicação entre localidades há alguns anos votadas ao isolamento, no desenvolvimento das regiões autónomas dos Açores e da Madeira…

Só quem não anda pelo país pode desconhecer o muito que foi criado ou melhorado nestes 37 anos.

Tudo isso – o bom e o menos bom - também devemos aos partidos e aos políticos que nos têm governado e às oposições que com a sua acção contribuíram para que os governos fizessem melhor umas coisas embora pudessem ter deixado de fazer outras.

É certamente por termos muito do que temos - que é pouco para muitos - que devemos tanto aos nossos credores e agora temos cá o FMI, o BE e a UE.

Trabalhemos então para pagar o que devemos mas não façamos dos políticos e dos partidos os bombos da festa…

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Uma resposta a Os bombos da festa

  1. aires diz:

    Faz impressão que seja preciso recordar este seu escrito, àquele quarteto de luminarias, mais as suas respeitaveis senhoras na primeira fila,

    parece vivermos num purgatorio com a ressureição daquelas almas assim a modos que ja penadas…

    e vem-nos dizer, modo energico,

    toda a porcaria que, com eles, fomos fazendo ao longo dos anos…

    Donde lhes advem tanta sabedoria e bom senso repentinos?

    Há qualquer coisa de estranho no ar,

    o subito fulgor em tudo que é jornais e televisão de Soares e mais Soares, em simultaneo com Passos Coelho, Marcelllo em fundo sempre a dar o tom

    Otelos e Lourenços, mais Marinho Pinto

    nem quero falar das esquerdas e das greves que se aproximam com pais em ruptura…

    e aqueles quatro, ressuscitados assim, sem como nem porquê…

    palavras sobre palavras….

    isto tudo é mui absurdo meu entendiemnto…

    abraço

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