Até onde pode ir o jornalismo?

Esta é uma estória de escutas, daquelas que ciclicamente invadem os média.  Foi publicada há já alguns meses aquiaqui. Na altura, chamei-lhe “jornalismo de coscuvilhice” quando ainda não conhecia os seus detalhes. O caso deu origem a uma queixa na ERC  que deu razão à queixosa, a deputada Edite Estrela, por violação dos seus direitos de personalidade. No decorrer da investigação realizada pela ERC foram ouvidos os intervenientes no processo, entre os quais a jornalista autora da peça, e foi aí que vieram à luz factos relacionados com procedimentos adoptados pelo jornal que  publicou em primeiro lugar as escutas  – o Correio da Manhã – reveladores do ponto a que pode chegar algum jornalismo no atropelamento de regras profissionais, éticas e até morais. Os factos relatados constam do processo que está acessível a quem deseje consultá-lo.

Vejamos:

1. A jornalista do Correio da Manhã fez-se assistente no processo “Face Oculta” e nessa qualidade “foram-lhe facultadas” escutas entre Edite Estrela (não arguida nesse ou em qualquer outro processo) e Armando Vara (arguido no citado processo) que, segundo a jornalista, “não estavam transcritas” (porque o juiz não as considerou de interesse para o processo, devendo, nos termos legais, encontrar-se  fechadas em envelope lacrado) mas “estavam no processo”;

2. Apesar de o acesso  a essas escutas ser ilegal, as mesmas  foram divulgadas sem “autorização expressa” das pessoas envolvidas, limitando-se a jornalista a solicitar “uma reacção dos interlocutores das conversas” gravadas, que estes recusaram;

3. Ouvida na qualidade de testemunha no processo indicada pelo seu jornal, a jornalista fez  questão de dizer que “ouviu muitas horas de conversas telefónicas que tiveram como interlocutor Armando Vara”, pelo que  “conhece a vida íntima de Armando Vara” e acrescenta  que a “conversa [entre este e Edite Estrela] foi limpa por si, de forma a não publicar a primeira parte da conversa que se referia a aspectos da vida íntima de terceiras pessoas, incluindo o Primeiro-Ministro”;

4. Ao fazer tais declarações, registadas em acta, a jornalista quis dar a conhecer que detém informações da vida privada de pessoas que desempenham cargos públicos, colocando-se na posição de poder vir a exercer sobre essas pessoas uma influência ilegítima, próxima da chantagem.

5. Igualmente grave é o facto de a jornalista ter violado flagrantemente deveres a que estava vinculada quer na qualidade de assistente no processo “Face Oculta” quer enquanto jornalista: como assistente no processo acedeu ilegitimamente às gravações; como  jornalista, não podia publicá-las por se encontrar  vinculada ao Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses que, no n.º 4, determina que “o  jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja (…)”.

Assim, para além de constituir um exemplo de práticas profissionais intoleráveis este é também um caso de promiscuidade entre jornalismo e poder judicial, porque não podendo a jornalista “assaltar” o processo para se apoderar de gravações que deveriam estar guardadas em envelope selado, alguém lhas facultou. E esse alguém só podia ser quem tinha acesso  privilegiado ao  processo.

Esta entrada foi publicada em Jornalismo, Justiça, Política. ligação permanente.

16 respostas a Até onde pode ir o jornalismo?

  1. Lu diz:

    A Tania Laranjo já à muito que devia ter sido proibida de fazer jornalismo e isto se é que alguma vez ela o fez! Primeiro mandava a senhora aprender a escrever. Depois de saber ler e escrever mandava-a aprender a ser gente e a respeitar a dignidade das pessoas, palavra que infelizmente desconhece o significado.

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  7. Caro leitor, este blog não é da ERC e o texto a que se refere é assinado por mim. A deliberação da ERC pode ser lida no link do post. A premissa é minha e baseia-se no facto de a jornalista ter querido que constasse de acta junta ao processo, acessível a quem requeira a sua consulta, que conhece aspectos da vida íntima do primeiro-ministro e de outras figuras. Ora, se eu, jornalista, conheço algo que não devo conhecer, porque razão vou exibir esse conhecimento? Parece claro, não acha?
    Quanto ao estatuto de assistente, deveria ser como refere. Porém, como certamente sabe se lê os jornais, não é. Esse estatuto tem servido, na maior parte dos casos, para fazer notícias, isto é, para divulgar informações sobre o processo, sobretudo sobre políticos.

  8. Santiago Mattamouros diz:

    Gostava de perceber como é que a ERC passa da permissa “detém informações da vida privada de pessoas que desempenham cargos públicos,” para a conclusão de que o jornalista se coloca “na posição de poder vir a exercer sobre essas pessoas uma influência ilegítima, próxima da chantagem.” e com base nesta “possibilidade” o condena.
    Por outro lado, julgava eu que o instituto do “assistente” em processo penal e a enorme latitude da sua admissibilidade nos processos de corrupção, servia, precisamente, para fiscalizar a actuação da investigação (quer do MP, quer do juiz de instrução). Afinal não. Serve só para pagar as custas.

  9. Porto diz:

    Intolerável. Há concorrência para a transgressão. Saber o que consegue a “caixa” mais bombástica. Não interessam os meios…

  10. Daniel Nicola diz:

    Pequito, o nome da jornalista vem na peça: Tânia Laranjo. basta clicar no link do CM.
    De resto, até onde pode ir a ERC? É que “Reprovar a conduta do Correio da Manhã e do DN” reprovamos todos, ou quase…

  11. Julio Marques Pequito diz:

    Ao não se dizer o nome desta “pseudo-jornalista” estamos a entrar no jogo sujo que existe entre jornalistas, juizes ,tipos da PJ ,etc…

  12. Pingback: Até onde pode ir o jornalismo? (via VAI E VEM) | Nuno Anjos Pereira

  13. Telmo diz:

    O jornalismo português chegou mesmo ao caixote do lixo salvo raras excepções. Ainda os há e bons ….jornalistas. Mas que mete nojo ler alguns jornais não tenham dúvidas.

  14. EGR diz:

    Subscrevo:execrável.
    Espero que um dia essa gente não consiga,pura e simplemente,sobreviver na profissão.
    O mesmo se diga para quem lhes paga .

  15. aires diz:

    agree…
    é isto mesmo, miseravelmente…
    abraço

  16. Ana diz:

    Absolutamente execrável !!!!!!!!
    Por estas e por outras é que, há muito, deixei de comprar jornais portugueses.

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