Manipular pela imagem

Eis dois exemplos de fotografias que não “dizem” o que alguém quis que elas dissessem: 

A primeira foi capa do Jornal de Notícias.  Quem olha para essa fotografia sem folhear o jornal vê a imagem de Sócrates e Passos Coelho, num aperto de mão quase amigável, mais efusivo da parte de Sócrates mais distante da parte de Passos Coelho. Fica também a saber que a fotografia se relaciona com as “legislativas”. Essa percepção é contudo anulada pela legenda que lhe foi aposta: “Sócrates confiante”, “Passos hesitante”.

Essa  fotografia sublinha o momento em que  os dois adversários políticos se cumprimentam antes do início do debate. Não podia assim reproduzir nem simbolizar o “estado de alma” de cada um dos  contendores após o debate, como parece sugerir a legenda.

O JN optou assim por dar a essa fotografia  um conteúdo que não lhe corresponde, induzindo  uma determinada “leitura”. A  legenda não corresponde ao momento “real” em que  a imagem  foi captada mas sim à visão  do jornal  sobre o debate entre os dois protagonistas da fotografia.

A segunda fotografia, publicada na edição do DN deste domingo, é também uma fotografia  à margem do conteúdo a que está associada. A crer no título da peça a que reporta, pretende ilustrar o que o jornal diz ser o “esmorecimento”  de Sócrates após o debate com Passos Coelho: “Desanimado”? “Não!”,  é a frase que abre a peça.  Porém, conforme diz a legenda, a fotografia foi tirada no dia seguinte ao debate.

Esta fotografia é mistificadora porque mistura o verdadeiro, o falso e o virtual. Sem o dizer, pretende servir de prova ao  “facto” relatado no título: o “esmorecimento” dos “socialistas”, após o debate entre Sócrates e Passos Coelho. Ao contrário da fotografia do Jornal de Notícias cuja legenda assume expressamente uma “leitura” para cada um dos protagonistas, a fotografia do Diário de Notícias  tem uma mensagem  subliminar, sendo portanto menos transparente que a fotografia do Jornal de Notícias.

Independentemente da constatação de que a primeira fotografia desfavorece Passos Coelho e a segunda José Sócrates, a conotação negativa desta é muito mais forte e evidente que a da primeira.

Ambas as fotografias foram  descontextualizadas. Pertencem a um tempo e a um lugar distintos daqueles que lhes são conferidos pelo respectivo enquadramento textual (título, artigo, legenda). Nessa medida são ambas manipuladoras e enganosas.

Acresce que a descontextualização destas fotografias representa também um desrespeito pelos repórteres fotográficos que as assinam. 


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