Por seu turno, a sondagem da Universidade Católica para a RTP, destinada a apurar quem ganhou o debate, reforçou a convicção que já existia em muitas pessoas de que o debate era decisivo para o resultado eleitoral, sobretudo para o líder do PSD que até aí era visto como tendo perdido ou, pelo menos, não tendo ganho os debates anteriores.
Como se viu, as opiniões dividiram-se de acordo com vários factores e a análise dos respondentes, como sempre acontece, não é indiferente aos resultados, como Pedro Magalhães refere aqui. Ainda assim, uma resposta à pergunta “quem ganhou?” pressupõe uma série de outras perguntas, desde logo, saber o que é ganhar um debate.
Esta questão prende-se, por sua vez, com várias outras e apela a velhas e novas teorias sobre os efeitos dos media, neste caso, da televisão. Acresce que a análise dos efeitos da televisão, incluindo dos debates eleitorais, não pode ser separada da análise das características do meio televisão.
Desde logo há que atender a que as imagens de televisão não se reduzem a um conteúdo informacional. A televisão é feita de imagens – imagens de palavra, actos de olhar, actos de exibição. Num debate entre candidatos eleitorais podemos, quase mais do que ouvir o que dizem, perscrutar as expressões, observar o vestuário, notar os tiques.
Por outro lado, a imagem televisiva não é portadora de um sentido unívoco. É no olhar de cada telespectador e no confronto com outro olhar que a imagem toma sentido. A carga afectiva que uma determinada imagem comporta varia de pessoa para pessoa. O detalhe que alguns não percepcionam, torna-se significativo para outros. O espectro da imagem é, pois, grande, estendendo-se das sensações visuais elementares às significações intelectuais, percorrendo, simultaneamente, o registo fantasista. Um telejornal, como um debate televisivo, oferecem, pois, uma pluralidade de interpretações.
Daí que as respostas a perguntas como a que foi feita pela sondagem da RTP – “quem ganhou o debate?” – seja pouco ou nada esclarecedora sobre quem está mais ou menos preparado para ser primeiro ministro, ou quem é mais ou menos “sério” ou “honesto”, ou quem conhece melhor ou pior os dossiês da governação.
Cada respondente evocará as sensações, as emoções, o afecto, a simpatia a espontaneidade e a relação que estabeleceu com cada um dos candidatos, porque a televisão é um meio que apela mais à emoção do que à racionalidade.
A tudo isto se junta a profissionalização dos candidatos, quase sempre treinados por profissionais de marketing para enfrentar as câmaras. O “falso natural” é a atitude que, em geral, adoptam perante as câmaras de televisão. O que é avaliado é a performance e não o que é dito.
No debate entre José Sócrates e Passos Coelho, José Sócrates utilizou, como sempre, a sua capacidade performativa face às cãmaras de televisão. Como “profissional” nato que é, não surpreendeu. Ao contrário, Passos Coelho que nos debates anteriores se mostrou inseguro, evasivo, amorfo e inexpressivo, com Sócrates foi capaz de se mostrar ora vigoroso ora distendido, menos prolixo e mais assertivo com dois ou três sounbites repetidos ao longo do debate. Foi até capaz de controlar a expressão do rosto, quando Sócrates falava e a câmara o apanhava em contraplano.
Nessa medida, Passos Coelho mostrou aos “seus” e talvez a muitos indecisos que, afinal, era capaz de não ficar atrás de Sócrates no “duelo” televisivo que, conforme disse depois, “acabou com o mito da invencibilidade de Sócrates”.
Não foram, pois, as ideias de cada um deles que estiveram em apreciação naquele debate. Porque não é da natureza da televisão aprofundar ideias. Foi sim a capacidade de cada um “chegar” a quem o via (com tudo o que isso comporta e exponho mais acima).