VAI E VEM

Políticos, para quê?

Muitos interrogam-se sobre o que levou os jornais a avançar com nomes de pessoas dadas como futuros ministros  no governo de Passos Coelho. Ora, se é verdade que em muitos casos os nomes vinham acompanhados de cautelas noutros eram dados como certos.

Uma vez que os nomes postos a circular pertenciam ao grupo dos chamados “pesos pesados” ou “nomes fortes” – como  Eduardo Catroga, Vítor Bento, Pires de Lima, Lobo Xavier, entre outros – as expectativas ficaram muito altas pelo que qualquer recusa por parte de um destes colaria  aos que os substituíssem a  etiqueta de “segunda escolha”. Foi, aliás, mais ou menos o que aconteceu, pelo menos no primeiro momento. Mas as coisas foram mudando nas horas seguintes.

Deu-se a coincidência de nesta sexta-feira a divulgação dos nomes dos ministros me ter apanhado em provas académicas (com telemóvel desligado), pelo que só passadas umas horas “apanhei” a notícia via rádio, no automóvel, através de comentadores que se mostravam muito cautelosos e nada entusiasmados. A juventude dos ministros era a qualidade mais apontada: “um governo de jovens”, dizia um dos radialistas  entusiasmado.

No primeiro noticiário discutia-se a falta de experiência política dos “principais” e o “aparelhismo” dos restantes. Na segunda hora (da minha viagem) a discussão avançava um pouco mais e já se olhavam os currículas e a desilusão anterior começava a atenuar-se. A tónica era: afinal os “principais” até são doutorados e com experiência académica e europeia.  E quanto aos “políticos” garantem a “coordenação”. Ao fim e ao cabo as escolhas apareciam já como justificadas e coerentes. Os comentadores das rádios pareciam então mais animados.

Nos noticiários seguintes, já com a minha viagem terminada, continuei a seguir os acontecimentos. Começaram então a aparecer os spin-doctors – em geral, “pesos pesados” que ficaram de fora do Governo (por vontade própria ou descartados pelo primeiro ministro indigitado). Medina Carreira nem parecia o mesmo, elogios aos novos governantes independentes, mesmo confessando que não  conhece alguns (mas ouviu falar deles). Jovens, sim senhor, que aos 30 e aos 40 é que se trabalha. E dava alguns conselhos: “nada de privatizações agora, porque isso é para perder dinheiro”. Campos e Cunha, outro ex-ministro das Finanças, desfazia-se em elogios aos dois”principais”: graus académicos, obra publicada, contactos internacionais, do melhor. Catroga, idem, juventude é que é preciso.

A crer na elite do comentário escutada nestes dias, a “mais-valia” do novo Governo são os técnicos, os independentes. Adivinha-se até nas suas (dos comentadores) cabeças que o facto de não terem experiência de contactos com partidos e com políticos (essa praga da democracia) só pode ser garantia de que nada os desviará da missão que “o povo” lhes entregou através do indigitado primeiro-ministro. Os jornalistas foram na “onda” e vai  de desencantar frases que eles escreveram em livros e blogs ou disseram em entrevistas e conferências, vendo nelas a tradução do “verdadeiro” programa de governo que lhes caberá aplicar.

Fiquei a pensar que, de facto, as eleições de 5 de Junho vão mudar muito no País e é legítimo que assim seja, visto que o povo disse que não queria quem lá estava antes. Mas sempre pensei que o governo do país seria conduzido pelo partido vencedor – o PSD – coligado com o seu “parceiro natural” – o CDS – que, aliás, não foi em cantigas (sem desprimor para o professor Cantiga, cujo comentário ainda não ouvi, certamente por falha minha) e resolveu a sua quota ministerial com a  “prata da casa” (aliás, em escolha feliz, até em termos de contribuição para a média etária do governo).

Resta esperar que os ilustres independentes escolhidos para ministros “principais” e bem assim  os restantes independentes “menos principais” (saúde e educação), cujos currículas  tanto inebriaram os opinadores, não se sintam diminuídos na sua independência nem rebaixados nas suas valências académicas se tiverem (espera-se que tenham) de obedecer  aos representantes da “descredibilizada” e quase descartável classe política, por acaso eleitos pelo povo “ignorante” para mandar neles. É que o povo  vota em políticos que têm a “coragem” de se apresentar a escrutínio.

É claro que os jovens académicos escolhidos pelo primeiro ministro indigitado nenhuma culpa têm da habitual saloiice nacional que considera que tudo (ou quase tudo) o que é político é desprezível e tudo o que é técnico é bom, sobretudo, como é o caso, se tiver vivido “lá fora”.

 

 

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